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POR QUÊ ATACAR O IRAQUE?
Viegas Fernandes da Costa*
Depois de consumado o ataque ao Afeganistão, que possibilitou aos Estados Unidos o controle da Ásia Central, rica em minérios e que por onde possivelmente passará um enorme gasoduto que atenderá aos interesses financeiros do Ocidente, e por isso a necessidade de exterminar o governo Taleban, contrário que era a estes interesses, agora a "bola da vez" é o Iraque, cuja invasão por tropas estadunidenses parece certa. E a questão que se coloca é a de se compreender as razões que movem os discursos bélicos em relação a este país.
Em entrevista a uma emissora de televisão russa, a conselheira de Segurança Nacional dos EUA, Condoleeza Rice, afirmou ser "imprescindível uma mudança de regime no Iraque". Mas que mudança seria esta e por que tal necessidade? Segundo Raúl Maliajan, candidato do Partido Verde ao governo do Texas, o desejo de Washington é acabar com Saddam Hussein sem no entanto acabar com o Regime de Saddam, ou seja, o objetivo consiste em substituir um líder nacionalista, que já fora financiado pelo governo estadunidense na guerra contra o Irã, por outro, "mais acessível", ou ainda, "mais confiável". Apesar do discurso moral que denuncia o autoritarismo de Saddam, a história recente mostra a simpatia "yankee" por déspotas e ditadores de toda sorte, desde que submissos ao "Tio Sam", como foi o caso do Brasil durante os anos de ditadura militar.
Assim sendo, vejamos os argumentos utilizados para justificar o ataque. O primeiro e mais forte deles é o de que o governo iraquiano estaria desenvolvendo armas de destruição de massa. Contra este argumento pesam as declarações feitas por Scott Ritter, delegado da Comissão Especial das Nações Unidas para o desarmamento do Iraque (Unscom) entre 1991 e 1998. Segundo ele, a comissão desmantelou toda a estrutura que possibilitava ao governo iraquiano o desenvolvimento de armas nucleares e químicas, e que constatou a improbabilidade deste país voltar a desenvolvê-las dada a sua decadência científica, técnica e industrial. O segundo argumento, também muito forte, alega que Saddam Hussein proíbe a entrada de novos inspetores da ONU no país, e isto serve como indício das intenções de desenvolvimento bélico deste governante. O Iraque alega que os Estados Unidos infiltraram espiões entre os inspetores da ONU, e por isso a proibição. A argumentação iraquiana é confirmada por Scott Ritter, que em artigo publicado confirma a presença de agentes da CIA e da Força Delta entre as equipes de inspeção da ONU, ferindo assim o direito de soberania do Iraque. Ademais, não é interesse dos EUA que os agentes da ONU retornem com suas inspeções em território iraquiano, mesmo porque isto inviabilizaria um possível bombardeio do país. Não é à toa que Bush recusa a oferta de Saddam às Nações Unidas: a permissão do retorno dos inspetores em troca do fim do embargo econômico, em vigor desde o fim da Guerra do Golfo e que atinge principalmente a população mais pobre.
Se não é por causa das armas químicas e nucleares, por quê então invadir militarmente este país? Em resposta é possível apontar algumas razões. A primeira gira em torno do petróleo. O Oriente Médio produz aproximadamente 2/3 do petróleo mundial, e controlar a produção iraquiana (que é de aproximadamente 127 milhões de toneladas por ano) sempre foi interesse de Washington. Uma Segunda razão é a possibilidade estratégica de isolamento territorial do Irã, que nas palavras de Bush pertence ao "eixo do mal". Inimigo declarado dos Estados Unidos, o Irã é uma força regional importante, e com a tomada do Afeganistão por tropas ocidentais, viu os países fronteiriços serem controlados por governos hostis a sua política. Uma terceira razão é a proximidade das eleições estadunidenses. Com aproximadamente 57% de estadunidenses apoiando uma intervenção militar do seu país no Oriente Médio, segundo pesquisa realizada pelo Washington Post, uma declaração de guerra ao Iraque representaria maior popularidade para Bush e para os candidatos republicanos. Uma quarta razão seria a conquista de novos mercados para as empresas dos EUA, daí a necessidade de derrubar um governo nacionalista como o de Saddam Hussein, além é claro, de criar novas possibilidades para uma economia recentemente afundada em escândalos.
Apesar de toda ansiedade de Bush em deflagrar a guerra contra o Iraque, a mesma não é compartilhada pelos aliados europeus, seja por razões econômicas ou políticas. A Rússia, por exemplo, tenciona assinar um acordo de cooperação comercial envolvendo os setores petrolíferos, de energia elétrica, de produtos químicos e de transportes com o Iraque no valor de 40 bilhões de dólares. Já na Alemanha, o chanceler Gerhard Schroeder indiretamente chamou o presidente dos Estados Unidos de aventureiro, e excluiu o apoio alemão a um ataque unilateral estadunidense ao Iraque, chamando ironicamente a guerra de "passatempo-guerreiro". Também os governos da França e da Inglaterra manifestaram-se contrários ao ataque, pressionados que estão pela opinião pública e pelo preço do petróleo, que subirá se o conflito acontecer. Até mesmo o fiel aliado dos EUA no Oriente Médio, a Arábia Saudita, proibiu o uso do seu território como base para um ataque ao governo de Saddam, obrigando à reorganização das tropas no pequeno Catar. Restou a Bush o apoio de Israel, que alega ser o regime iraquiano o grande financiador dos fundamentalistas palestinos. Aliás, por quê a ONU não decretou o embargo econômico de Israel, já que o mesmo também proibiu a entrada dos inspetores nos territórios onde Sharon autorizou um verdadeiro genocídio?
Como se vê, as razões para o conflito no Oriente Médio são complexas e muito mais profundas que aquelas apresentadas por Bush.
* O autor é Historiador e Professor.
Blumenau, 19 de agosto de 2002.