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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. ARQUIVO DE CRÔNICAS 01 - O Galo, as galinhas e a raposa. ARQUIVO COMENTÁRIO DA SEMANA DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
O GALO, AS GALINHAS E A RAPOSA
Certa vez ouvi dizer que o galo canta todas as manhãs para anunciar à população do galinheiro que ele continua vivo, e, portanto, ainda é o "patriarca" do lugar, o Don Juan do pedaço. Como animal urbano que sou, não sei se o que me disseram é verdade, mas de qualquer modo a informação serve para ilustrar o que um certo presidente de uma certa república, que se apresenta como modelo de democracia para o resto do mundo, faz rotineiramente. Cacarejando tal qual um galo no galinheiro, e sabendo poder contar sempre com as fiéis galinhas que acodem em audiência, o tal presidente ameaça agora (e novamente), aquele país cujas terras já receberam alguns dos mais antigos núcleos urbanos da humanidade: o Iraque. Aliás, sai galo, entra galo, o Iraque e sua raposa são sempre o alvo da ira do galinheiro, que em 1991 invadiu o seu covil, transformando-o em alvo daquilo que havia de mais moderno em armamento bélico. A questão é que mesmo ferida gravemente, e tendo seus domínios severamente vigiados, ela continuou viva e arisca. Tudo isto me lembra ainda as histórias do "Superman" que eu lia quando criança. Ao menor sinal de perigo, lá estava o intrépido herói de roupa azul e sunga vermelha pronto para salvar o mundo dos perigos externos. Claro que na época em que eu lia estas histórias, a humanidade vivia os temores da Guerra Fria, e o mundo era o Ocidente capitalista. Os perigos vinham de "fora", dos países socialistas, "aberrações alienígenas prontas para instaurar o terror". Porém "Superman" teve que se atualizar, e agora luta contra o "criptônico" terrorismo, a única ameaça capaz de matar o herói. Mas como nos quadrinhos, ou nas telas do cinema, o herói pensa vencer no final. Penso que nosso galo, lá da sua "Liga da Justiça", andou estudando profundamente as táticas da arquiinimiga Raposa, escondida no deserto, atrás de algumas torres de petróleo, e agora convoca a "Mulher Maravilha" e toda sua trupe para o "embate final". Será? A atual conjuntura internacional é completamente diferente daquela que viu acontecer a Guerra do Golfo. Naquele momento o Iraque havia invadido o Kuwait e ameaçava entrar no jogo de xadrez usando o "xeque petróleo", o que levou a mobilização geral das galinhas do galinheiro. Mas qual é a ameaça agora? A raposa esconde armas? Alimenta terroristas? E o que dizer do galinheiro? Não esqueçamos que o único país na História a utilizar armamentos nucleares em combate foi os Estados Unidos, e que este mesmo país, sob o pretexto de desfolhar as matas do Vietnã a fim de encontrar os esconderijos dos guerrilheiros vietnamitas, "desfolhou" a pele de inúmeros civis. Isto para não falar das muitas intervenções que a "democracia estadunidense" realizou nos diversos continentes, alimentando paradoxos como o de financiar a instauração de ditaduras militares e silenciar a respeito do assassinato de milhares de pessoas na América Latina durante as décadas de 1960 a 1980, por exemplo. Aos cacarejos do galo a raposa responde com seu ódio, e com a vida dos seus filhotes, e todos acabam perdendo. O maniqueísmo existente nas histórias em quadrinhos que eu lia quando criança, é fruto da ignorância. Nesta briga entre o galo, as galinhas e a raposa, todos cometem erros. E agora, no momento em que a imprensa Ocidental anuncia, em tom triunfante e eufórico, a possibilidade de um novo conflito envolvendo diversos países no Oriente Médio, devemos considerar a vida de centenas de milhares de pessoas famintas e trajadas de andrajos que verão cair sobre suas cabeças não o maná milagroso, mas os mísseis milionários. VIEGAS FERNANDES DA COSTA Blumenau, 07 de julho de 2002.
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