CRÔNICA DA SEMANA

A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas.

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

ESPELHOS DAS RETINAS, ARAUTOS DOS OUVIDOS

Não sei se o conhecem os amigos leitores, eu mesmo nunca tive o prazer de cumprimentá-lo pessoalmente, mas nem por isso não me causou menor impressão.

Foi em algum programa de televisão, destes que passam de madrugada, que o vi pela primeira vez: magro, uma profética barba branca, ainda que muito suja, o corpo coberto por andrajos e ornado por um plástico negro que lhe servia como capa. Um mendigo, como tantos outros mendigos que esquecemos a cada esquina, habitante da lona que estendeu às margens da estrada. Andar não pode, jamais se recuperou das bordoadas, dos chutes criminosos, da surra que lhe deram as bestas civilizadas, que do alto de sua arrogância e intolerância, quebraram-lhe as pernas, obrigando-o a viver de cócoras, quase que se arrastando em meio ao pó da cidade. O rosto coberto está de pêlos e rugas, que não escondem seus olhos profundos e pungentes. Claro que em um país (ou ajuntamento?) como o nosso, talvez tal cena seja encarada com naturalidade por uns, por outros como uma obscenidade ao refinado olhar que se ilustrou nos diálogos das novelas e nas manchetes das colunas sociais, ou ainda, para aqueles que por hábito queimam índios e andarilhos quando estes dormem ao abrigo do céu, com sadismo ou indiferença. Mas a imagem chocou, marcou. Não só por sua condição social ou pelas pernas quebradas, mas principalmente pela forma como manuseava seus escritos. Sim, seus escritos!

Passa os dias escrevendo, ouvindo, conversando, percebendo... e escreve! Pilhas e mais pilhas de textos, seus filhos que preserva e embala com carinho; são sua riqueza, sua identidade, sua herança. "Você poderia nos mostrar o que escreve?", é a indagação do repórter. E o velho (?) vai, arrasta-se, as pernas criminosamente atrofiadas marcam o chão, o trânsito na rua é lento, os motoristas percebem a câmera, o repórter... e diminuem a velocidade. Não fosse isso, quiçá passavam por cima, derrubavam, o que não seria surpresa em um país que aceita ver seus menores caçando ratos no esgoto e se prostituindo sob os semáforos. Alheio a isto, o homem consente em mostrar os textos.

Particularmente esperava ver um amontado de papéis sujos, amarrotados, rasgados até, mas qual não é minha surpresa quando o vejo escolhendo um dos muitos pacotes de papel pardo, cuidadosamente amarrado com um barbante. Ao eleger um dos fardos, o poeta - permitam-me assim chamá-lo - , arrastou-se para o outro extremo da sua tosca barraca, alcançou uma garrafa com água e, como que se estivesse prestes a realizar um parto, lavou as mãos. Ele, um mendigo, trajado de andrajos, o alvo da barba enegrecido pela poluição da grande cidade, deteve-se por um longo minuto a esfregar cuidadosamente o sabão entre seus dedos, entre as mãos grandes de ossos e veias salientes, extensões de sua boca, que cala porque sabe ouvir.

As mãos lavadas e secas, manuseiam então seus textos, espelhos das suas retinas e arautos dos seus ouvidos. O papel pálido evoca memórias, momentos significativos apesar de momentos, apenas. E o repórter, satisfeito com seu "furo", agradece, e vai embora. O velho (?), poeta... mendigo, permanece lá, olha, acena em despedida, guarda novamente o pacote e espera... difícil saber o quê, mas suponho que seja o mesmo que todos nós esperamos naqueles momentos, raros, em que podemos contemplar o absurdo que nos cerca.

Blumenau, 13 de julho de 2002.

Viegas Fernandes da Costa

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