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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
ESPELHOS DAS RETINAS, ARAUTOS DOS OUVIDOS Não sei se o conhecem os amigos leitores, eu mesmo nunca tive o prazer de cumprimentá-lo pessoalmente, mas nem por isso não me causou menor impressão. Passa os dias escrevendo, ouvindo, conversando, percebendo... e escreve! Pilhas e mais pilhas de textos, seus filhos que preserva e embala com carinho; são sua riqueza, sua identidade, sua herança. "Você poderia nos mostrar o que escreve?", é a indagação do repórter. E o velho (?) vai, arrasta-se, as pernas criminosamente atrofiadas marcam o chão, o trânsito na rua é lento, os motoristas percebem a câmera, o repórter... e diminuem a velocidade. Não fosse isso, quiçá passavam por cima, derrubavam, o que não seria surpresa em um país que aceita ver seus menores caçando ratos no esgoto e se prostituindo sob os semáforos. Alheio a isto, o homem consente em mostrar os textos. Particularmente esperava ver um amontado de papéis sujos, amarrotados, rasgados até, mas qual não é minha surpresa quando o vejo escolhendo um dos muitos pacotes de papel pardo, cuidadosamente amarrado com um barbante. Ao eleger um dos fardos, o poeta - permitam-me assim chamá-lo - , arrastou-se para o outro extremo da sua tosca barraca, alcançou uma garrafa com água e, como que se estivesse prestes a realizar um parto, lavou as mãos. Ele, um mendigo, trajado de andrajos, o alvo da barba enegrecido pela poluição da grande cidade, deteve-se por um longo minuto a esfregar cuidadosamente o sabão entre seus dedos, entre as mãos grandes de ossos e veias salientes, extensões de sua boca, que cala porque sabe ouvir. As mãos lavadas e secas, manuseiam então seus textos, espelhos das suas retinas e arautos dos seus ouvidos. O papel pálido evoca memórias, momentos significativos apesar de momentos, apenas. E o repórter, satisfeito com seu "furo", agradece, e vai embora. O velho (?), poeta... mendigo, permanece lá, olha, acena em despedida, guarda novamente o pacote e espera... difícil saber o quê, mas suponho que seja o mesmo que todos nós esperamos naqueles momentos, raros, em que podemos contemplar o absurdo que nos cerca. Blumenau, 13 de julho de 2002. Viegas Fernandes da Costa
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