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CRÔNICA DA SEMANA

A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas.

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

PERIJIL

Penso que a maioria daqueles que nos acompanham neste momento conhecem, se não de ter lido, ao menos de ter ouvido, a clássica estória de Dom Quixote de La Mancha, escrita por Cervantes. Se acaso alguém não a conhecia, certamente passou a conhecê-la por estes dias, com algumas adaptações, é verdade, mas ocorrida de fato. Claro que hoje os cavaleiros andantes não morrem mais por suas amadas, atualizados como estão, mas certamente por ilhas ainda duelam, a fim de estabelecer a honra da propriedade. E que duelos! Com direito a helicópteros "Super Puma", aviões de combate F-18, tropas especiais e apoio naval! Seria Perijil a ilha prometida pelo "Cavaleiro da Triste Figura" a Sancho Pança, como recompensa por seus préstimos de fiel escudeiro, e por isso toda esta celeuma em torno de um pedaço de pedra desabitado e desprovido de qualquer atrativo, até então abandonado no Mediterrâneo? O fato é que aconteceu, e até a Organização das Nações Unidas já foi intimada a intervir, como se questões mais importantes não necessitassem a sua atenção.

Penso que a coisa se deu da seguinte maneira:

Estava lá o rei do Marrocos um pouco preocupado, talvez, com sua popularidade, arranhada com a insistência dos separatistas do Saara Ocidental em declarar a independência daquele monte de areia, quando mandou chamar seu séquito de puxa-sacos para uma consulta. Entres os tantos assuntos discutidos, lembrou um dos ilustres presentes, quem sabe tenha sido o próprio primeiro-ministro, que a melhor forma de se resolver um problema é desviar a atenção do povo sobre o mesmo. "É, taí uma boa resposta!" - deve ter meditado o monarca, dando corda para que o brilhante proponente desse prosseguimento a sua reflexão. "E a melhor forma de fazermos isto é conquistando novos territórios!" Esta sim era uma idéia que em muito agradava o rei, pois além de solucionar seu problema imediato - o da impopularidade - , ainda lhe ampliava os domínios. "Mas que territórios havemos de invadir?" - indagou o secretário de uma pasta qualquer, que só estava lá porque era cunhado de uma das irmãs do príncipe. "Perijil!" - altissonante resposta que quase fez estremecer o palácio. "Perijil? Mas que diabo de lugar é este?" - indaga o ministro da guerra, que já estava a se tremer todo. "Vossa Majestade há de compreender que esta não é uma terra muito vasta, muito menos preciosa, mas terra é, e para uma boa residência de férias aos nobres desta nossa pátria há de servir". "Acatado, invade-se então Perijil e depois vê-se no que dá, e não temamos, pois Alá há de nos proteger nesta santa batalha!" - bradou alvissareiro o monarca. E foi assim que se decidiu o envio de doze Gendarmes (uma espécie de policial militar marroquino) para a perigosíssima ocupação da ilha, que de área é um pouco maior que um campo de futebol (interessante observar como campo de futebol se transformou em unidade de medida) e de população só pode contar mesmo com os líquens cravados em suas pedras.

Agora, de estupefação mesmo foi tomado o governo espanhol, a cujos domínios pertence o pedregulho, segundo comprova uma carta de 1746, confeccionada por um tal de Luis Huet, que deve estar a vibrar em seu túmulo pois fora tirado do esquecimento por uma maluquice marroquina.

Discussão daqui, discussão dali, e dá-lhe porrada na mesa do Conselho de Segurança Nacional Espanhol: "É uma afronta, um insulto, fere a soberania nacional" - grita um mais exaltado; já outro afirma: "qualquer resposta será interpretada como de legítima defesa do povo espanhol". É? Eu, que de entendido em política internacional não tenho nada, apenas vejo Dom Quixote sentar em seu cavalo, vestir sua lata e correr na direção do inimigo. Só fiquei com pena dos tais gendarmes, que devem ter se aterrorizado com a imagem dos enormes helicópteros "Super Puma" lançando sombra sobre a ilhota e açoitando suas barracas com o vento das hélices. Tanto que se renderam sem dar um único tiro. Melhor para eles.

Quanto ao Marrocos, que viu sua bandeira ser destituída dos seus mais novos domínios em menos de uma semana, brada por reparações e exige da comunidade internacional um posicionamento sobre o assunto. Mas a ONU já disse: nem Espanha, nem Marrocos, a ilha é de Sancho Pança!

Blumenau, 20 de julho de 2002.

Viegas Fernandes da Costa

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