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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
AMIGOS DA ESCOLA Há poucos dias aconteceu na cidade de Curitiba um importante congresso de educação. Tal fato, por si só, já merece toda a nossa atenção, principalmente por sabermos ser a educação assunto de grande importância para os nossos governantes, ilustrados como são. Inclusive, estão em tão alta conta as questões pedagógicas entre os nossos legisladores e executores (sim, o senhor leu corretamente, executores, e da mais fina flor, diga-se de passagem), que já se discute, por exemplo, a necessidade ou não do desenvolvimento de projetos pedagógicos nas redes de ensino: o projeto é não ter projeto, um grande avanço! Mas... como íamos escrevendo, aconteceu o tal congresso, e dentre as inúmeras questões abordadas, é a dos "amigos da escola" que quero rascunhar aqui. Trata-se da mais nova "solução milagrosa" encontrada por nossos burocratas do Ministério da Educação para os raríssimos problemas que afligem o ensino brasileiro. E a idéia é muito simples: enfiar a comunidade na escola para desenvolver as funções que o Estado deveria assumir. Permitam-me aqui um parêntesis para lembrar que quanto maior o número de voluntários neste país, maior o número de impostos cobrados (qualquer dia desses há de surgir o imposto sobre a prática do voluntariado). Bem... Bem... Bem... voltemos ao nosso assunto. Como não gosto de falar sozinho pedi a opinião de Mestre Abelardo a respeito do tema, dado ter sido ele renomado professor por muitos anos. Nosso sábio docente respondeu-me que a idéia parece um tanto extravagante (ele disse repugnante, mas repugnante para mim é barata, então fica extravagante mesmo), e questionou por que tal sistema não é também adotado em outras áreas, a saúde por exemplo. "Já pensou, voluntários da saúde?" - provoca. Eu, da minha parte, fiquei pensando: por que não? Imaginemos. O senhor vai ao hospital para fazer uma rápida cirurgia de circuncisão e descobre que seu médico ficou doente e não poderá atendê-lo. Como fica? Ir embora? Voltar outro dia? Nada disso! Muito atenciosamente a moça do guichê comunica que o substituto do médico irá atendê-lo e realizar a cirurgia. É claro que o senhor, inteligente como é, ficará um tanto quanto desconfiado e tratará de interrogar o tal substituto com perguntas do tipo: "qual o seu nome?", "formou-se quando?", "para que time torce?", e outras do gênero. No que o prestativo substituto responderá: "eu sou o Fulano de Tal, na verdade não sou formado em medicina não, sou especialista em taxidermia e passo os dias empalhando passarinhos, tô aqui só como voluntário, sabe, no projeto voluntários da saúde, dando uma força". É, pois então, certamente o senhor ficaria um tanto quanto preocupado com a resposta, não é? Já pensou se ao invés de circuncidar, o Dr. Fulano de Tal resolvesse empalhar o "dito cujo"? Trágico não é? Agora, educação pode né!? Eu sei, eu sei, o senhor vai me dizer que é diferente, que escola e hospital não são a mesma coisa, que operar e ensinar exigem habilidades diferentes etc, etc, etc... Mas segundo Mestre Abelardo, a quem respeito porque é entendido no assunto, voluntário na educação é engodo e sacanagem para cima do povo! Começa com o pai que pinta o muro, a mãe que costura o uniforme, o aposentado que fica de vigia. Claro que assim o governo economiza com pintor, com uniforme e segurança, permitindo maiores sobras para pagar os juros da tal dívida externa e deixando contente titio FMI. Depois amplia, chama a filha do seu Chico lá da padaria, que não tem muito o que fazer mesmo e andou bordando algumas coisas na faculdade, e coloca para substituir professor quando algum tiver que se ausentar da sala de aula ou da escola. Aí o diretor gosta, acha ela bonitinha, a piazada aprova porque ela deixa colar na prova, e pronto! Fica temporariamente contratada! E o "temporariamente" por aqui pode representar muito, muito tempo! E o pior é que no embrulho o projeto até parece bom! "Mas só parece" - lembra Mestre Abelardo, acrescentando que a Glorinha, caixa do supermercado, inscreveu-se para lecionar matemática, como voluntária, bem dito, mas que promete: quando chegar na trigonometria chama o marido, que é carpinteiro e entende do assunto. Blumenau, 23 de julho de 2002.
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