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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
PADRE MANOEL Viegas Fernandes da Costa
Nunca houve, naquela paróquia, um sacerdote tão bem quisto, tão admirado, quanto padre Manoel, e percebam, amigos leitores, que muitos padres já andaram a rezar missa por aquelas bandas, talvez mais de duas dezenas desde a época em que seu Paulo da mercearia ainda vendia trigo por quilo, pesado ali mesmo, na frente do freguês, em pratos de balança honestíssima, já que não cabia a ele (não cabia e não queria) lograr ninguém. Mas como íamos dizendo, padre Manoel era apreciado não só pelas respeitabilíssimas senhoras defensoras da moral e da ética cristã (que a todos os padres que por lá apareciam, veneravam), mas também pelos inveterados consumidores de aguardente que faziam do balcão azul do Bar da Zulmira o altar sagrado onde depositavam seu dízimo. Como isto era possível? Explicaremos. Mas não sem antes acrescentar que, devido a antigüidade do fato aqui narrado, o mesmo nos foi contado pelo João, não o Brandão da obra de Drummond, mas o João Filósofo, professor e informante que conhecemos há longa data. Segundo nosso informante, padre Manoel possuía todos os atributos necessários a um bom sacerdote: era bonito, tinha voz de guardanapo, olhos verdes, sobrancelhas negras e vistosas, vasta cabeleira e, já íamos nos esquecendo, conhecia de trás para diante a Bíblia, além de beber vinho como ninguém. "Como é bonito ver padre Manoel entornando cálices e cálices sem derramar uma só gota do líquido precioso!", exclamavam extasiadas noviças que se posicionavam nos primeiros bancos da igreja a fim de não perderem um só movimento do sacerdote, que quando levantava os braços em prece concedia-lhes a visão daqueles membros musculosos. Mas o que o tornava tão bem quisto por todos não era bem todas estas características, já que aos profissionais da aguardente pouco interessava se o santo homem possuía vastas sobrancelhas ou braços musculosos. O que mais chamava a atenção no padre Manoel era a sua capacidade de sintetizar os sermões, a fim de que não ficassem muito longos e cansativos. Deveras, jamais se vira padre mais econômico nas palavras do que este, que sem abrir mão da boa oratória, exigia no máximo cinco minutos da atenção dos seus fiéis ouvintes. O resto da missa? Cantos, rituais obrigatórios com suas respectivas orações e os avisos paroquiais. De resto era só aproveitar o dia. Aos fiéis cabia, quando do fim da missa, cumprimentar entusiasticamente padre Manoel, e não passava dia que não lhe elogiassem a eloqüência de suas breves (brevíssimas) palavras. Verdadeira peregrinação de fiéis a lhe apertar as mãos e beijar o rosto (sim minha senhora, a este padre beijavam o rosto, pois era como beijar o pai: não havia pecado). Assim se passaram alguns anos. Padre Manoel fora amadurecendo na idade e no sacerdócio. Das noviças, nenhuma restara, e, conta-se, uma veio a ser madre superiora. Também algumas das mais diligentes fiéis foram estudar a geologia dos campos santos, conforme diria Machado de Assis. Enfim, muita coisa mudara desde que o nosso sacerdote assumira aquela paróquia, agora, o que não mudava era a eloqüência e extensão dos seus sermões, que continuavam breves (brevíssimos). Pelo menos até aquele dia. Contou-nos João Filósofo que começara a notar a mudança na missa de Natal. Justamente aquela que era a mais sucinta de todas a fim de que não se queimassem os perus, que ficavam a assar enquanto se desenrolava o culto religioso. Naquele dia quase se queimaram os perus: o sermão durara sete minutos! Sete minutos, dois a mais do que o habitual! Todos perceberam, mas ninguém comentou o fato. Afinal, se Padre Manoel envelhecera, era natural que sua boca levasse um pouco mais de tempo para articular as palavras. Nada preocupante, desde que se lembrassem de, no próximo Natal, colocarem o peru um pouco mais tarde no forno. Mas a coisa foi se agravando. Na missa de ano novo, ao invés de sete, João contou ("cravadinho, no relógio") dez minutos! Dez longos minutos! Esclerose? Estaria Padre Manoel esquecendo o que deveria falar e por isso estendia suas palavras, perdendo o dom da síntese, tão peculiaridade sua? Possivelmente. Os fiéis, embora comentassem o fato nas rodas de fuxico, nada perguntavam ao padre. Porém a coisa foi visivelmente ficando pior. Os dez minutos estenderam-se para quinze, dezoito, vinte e dois, trinta! Trinta minutos! Já era demais, e a comissão dos "Unidos na Manguaça" foi a primeira a se reunir para deliberar seriamente sobre o assunto. Afinal, cada minuto acrescentado ao sermão significava um minuto a menos diante do balcão do Bar da Zulmira, que já falecera, mas deixara lá sua neta, muito mais graciosa e permissiva, se é que me entendem. Quando a pregação chegou aos quarenta e cinco minutos toda a paróquia já discutia o fato, sem no entanto encontrarem uma explicação plausível, até que alguém teve a brilhante idéia de conversar com Padre Manoel, que tinha seu semblante um pouco mais murcho a cada dia que morria. João foi o escolhido para conversar com o sacerdote, já que era, na época, seminarista. E se o amigo leitor espera um grande desfecho nesta história, é melhor abandonar a leitura agora mesmo, já que nos cabe aqui a função de apenas cronicar sobre os fatos, sejam eles vividos ou ouvidos, e nem sempre os desfechos da vida real são assim... como dizer?... surpreendentes! Não, a explicação fornecida pelo velho sacerdote foi bastante óbvia, e talvez justamente por isso ninguém tenha percebido a razão. Mas como íamos dizendo, coube ao nosso amigo (que na época ainda não era conhecido pelo complemento de "filósofo", mas tão somente de João, o seminarista) interrogar Padre Manoel. Eis a justificativa do santo homem:
João Filósofo explicou-me que foi neste dia que abandonou o desejo de vestir batina. Quanto ao Padre Manoel, este acabou sendo presenteado com uma remoção, já que a paróquia não gostava de sermões compridos. Foi enviado para uma cidadezinha no alto da Cordilheira dos Andes, de onde passou a fazer sermões para as montanhas. Blumenau, 27 de julho de 2002.
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