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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
CÍNTIA Viegas Fernandes da Costa Adentra o bar e escolhe a mesa, tosca, insegura e coberta por uma toalha pesada. Não fora beber, mas vai, afinal, como explicar sua irrupção repentina ao cair da tarde se não beber? "Coitado" - pensa ela, que se apruma lá nos fundos, ajeita a pequena saia enquanto se estica para alcançar o menu na prateleira. "Coitado, cara tão triste, sozinho...", vai meditando a garçonete enquanto decide caminhar até a mesa oito. Garçonete nem tanto, apesar de também sê-lo, mas o lugar é casa de família, atendem a proprietária e as filhas, esta na qual agora nos detemos é a mais nova das três, também a mais bela e atenciosa. Senta-se de costas para o balcão, não quer dar na vista, conhece a mãe, o pai, não quer causar incômodo, conhece até o namoradinho da menina, portanto, limitou-se a olhá-la no momento em que ela se detinha, sentada junto ao freezer, a preencher sua agenda de adolescente com sonetos do Vinícius, para depois desviar o olhar, aguardar o momento de ouvir o doce "pois não?" no qual se perde por alguns segundos, e pedir: "um cálice de vinho, branco, seco... por favor." Abandonado no imenso sorriso que toma a face juvenil da moça, sorriso de boca larga, lábios tenros, concorda que por ora é só isso... E ela agradece, não sem antes sorrir novamente e voltar sua cabeça para a porta de entrada, verificando o movimento constante do lado de fora. Pequena oportunidade para poder perceber a maciez da orelha, de onde pende o brinco da moça que ainda há pouco saíra da puberdade. Um brinco dourado que balança e lança reflexos de ouro por todos os lados até ser escondido pelo cabelo castanho, muito comprido, que lhe chega até quase à cintura e que ela afasta com suavidade feminina quando este lhe cai sobre os olhos também castanhos. Não se vira para vê-la ir buscar o vinho, seria indelicadeza, vulgar, apesar de muito desejar fazê-lo. Mas escuta a música que emana dos seus pés quando caminha, quase imperceptível de tão leve que anda. Lá fora a praça e a estrada no fim de tarde. Uma multidão que retorna exausta para cumprir com seu ritual de contemplação estática diante do televisor. Não há meios de perceberem-no na penumbra do bar, onde atende a moça, sua mãe, as irmãs. Perde-se então na contemplação do crepúsculo, e ao longe, lá onde termina o horizonte, tremula um Marte encarnado, provocantemente encarnado. "O vinho" - toca o cálice a mesa, um perfume de pêssego, do vinho, não da ninfeta que exala flores raras. "Já viu Marte, Cíntia?" é o que consegue perguntar depois de agradecer a bebida e de receber como resposta aquele sorriso que só uma boca de luar - como diria Drummond - pode oferecer, assim, tão gratuitamente. "Marte?" "Marte, no horizonte, longe, tremulando para nós." "Para nós?" "Modo de dizer, para todos nós." Ela não havia visto, mas vê, agacha-se um pouco para evitar o telhado, e como é belo seu joelho flexionado, suas costas... "Bonito, é Marte mesmo?" "É sim, vê, tremula encarnado, não há outro que tremula assim." "Havia" - pensa ela, talvez não encarnado, mas podia ver tremularem dois olhos verdes naquele rosto coberto por uma barba irregular, descuidada, angustiada. "Bonito..." repete ela, enquanto o ansioso freguês da mesa doze pede por ser atendido. "Moça!" Levanta-se pesarosa, gostaria de continuar vendo Marte, antes que alguma nuvem o roubasse de seus olhos, mas pede licença e se afasta em direção à doze, onde pateticamente gesticula o homem gordo, ruivo, que exala cerveja e pachorra por todos os poros. O vinho desce doce, e o aroma da fruta se espalha em sua boca. Quisera sentir outros aromas, quiçá dos segredos de Cíntia estendida sobre sedas, entregue à violência da carne em êxtase, mas tem seus desejos embargados no entibiamento da vontade. Ainda escuta sua inconfundível voz confirmando o pedido da mesa doze, e vacila, "se a tocasse? Beijasse seus lábios?", mas as pernas o impelem à saída. Paga o vinho, confirma retorno no dia seguinte, "quem sabe amanhã", e toma o caminho de casa. Da penumbra do bar Cíntia olha... olhar distante. "Foi-se, mas há de voltar. São só nuvens, passageiras, tangidas pelo vento, que o escondem. Amanhã volta, encarnado, e trará consigo um pedido de vinho branco, seco, de pêssego." ___ É agora apenas mais uma sombra misturada às outras, tivesse olhado para trás, teria visto o brilho de Marte nos olhos da Vênus. Blumenau, 16 de agosto de 2002.
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