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CRÔNICA DA SEMANA

A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas.

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

O PRESENTE DE ERNESTO

Viegas Fernandes da Costa

É, definitivamente estou enciumado! Desde quando o informante deve suscitar maior curiosidade do que o autor do texto? Mas enfim, a verdade é que durante a semana inúmeras foram as mensagens que me chegaram de fãs do... Ernesto! Sim, a meu respeito, quando muito, um "como vai?" inserido na missiva por mera educação. Porém o objetivo das palavras era mesmo o Ernesto que, envaidecido, cutucava-me as costas e, se pudesse falar (não podia pois recém tratara de um dente cariado) diria: "sai daí e deixe-me escrever". Quer me ver desempregado, o pulha!

Como sou um ser benevolente e que não guarda rancor, atenderei os inúmeros pedidos que me chegaram, mas não sem antes dizer que só o faço porque uma estranha felicidade tomou conta de mim. A razão para tamanha felicidade desconheço. Penso que um pouco se deve ao fato de ter visto o senador Eduardo Suplicy cantando Bob Dylan no Congresso Nacional, clamando pelo bom senso dos líderes mundiais diante da insanidade do "Filho do Velho", que de tanto assistir aos antigos filmes de faroeste, insiste em ser o "mocinho" que irá salvar a donzela vestida de petróleo das mãos de "Sadam Kid", o terror do deserto. Ai, ai... mas vamos à crônica antes que me atinjam os tomates dos leitores.

Desde que nos conhecemos, poucas foram as vezes que vi o Ernesto verdadeiramente apaixonado. Não que ele seja um monge ou algo do gênero, nada disso, aliás, da santidade está muito longe, apesar de ser um sujeito de princípios, o fato é que está sempre a procura da mulher perfeita, que nunca encontra. Também pudera, a perfeição consiste em compreendê-lo, em compartilhar dos devaneios ernestianos, o que não é muito fácil. Mas neste mundo há sempre alguém especial, e foi com enorme estupefação que ouvi, à mesa do bar e envolto na penumbra, Ernesto confessar: "estou apaixonado!"

Achei que fosse mais uma daquelas paixões passageiras, alimentada no calor dos lençóis, mas tive que ceder quando vi aquele brilho diferente em seus olhos. Não tinha outro assunto que não fosse a tez morena, os olhos castanhos, os lábios tenros e a sensibilidade ímpar da "encontrada" (poderia dizer escolhida, mas Ernesto não escolheu, encontrou aquela que chamava de "minha luminosa galáxia"). Eu ouvia pela amizade, porque devo confessar que já estava enchendo o saco tanto derretimento para cima da moça (já estou vendo tudo, na próxima semana estarão me chamando de ciumento insensível). E ouvir não era tudo, pior era ter que aconselhá-lo, logo eu que não consigo dar conselhos nem para mim mesmo, quanto mais para os outros.

A tal da "minha luminosa galáxia" era professora e morava numa cidade vizinha. Pessoa de hábitos simples, inteligente e muito bonita. Do Ernesto pouco exigia além da sua dedicação exclusiva. Telefonava, "vamos ao cinema?", nosso amigo consentia, ainda que estivesse ocupadíssimo, "vem me ver?", e lá ia ele, encarava o ônibus lotado (não dirige por posição ideológica), caminhava pelo paralelepípedo irregular, enfrentava a carranca do pai da moça para compartilhar uma ou duas horas de carinho com aquela que não era apenas estrela, mas toda uma constelação. Tudo isso pode soar como algo normal a qualquer apaixonado, mas em se tratando do Ernesto, que do amor sempre duvidara - "é uma construção cultural", dizia - , esta nova situação assombrava, não só a mim, mas a todos que o conheciam. Houve inclusive o episódio em que fora visto dentro de uma igreja, acompanhado da moça em questão, cantando hinos de Natal, algo inconcebível em outras épocas. Todos começamos a temer por sua saúde.

Agora, dramático foi quando, no mês de fevereiro, descobriu que se aproximava o aniversário da sua amada. Nunca o vira tão indeciso, angustiado, "fora do ar". O problema era o presente: "Que presente vou dar?" Depois de muito pensar, de sondar os interesses da moça, de convocar debates com os amigos, fiéis como sempre, decidiu-se por entrar no principal shopping da cidade, algo que nunca fizera, dado ser avesso aos templos, principalmente quando o forem templos de consumo. Mas depois de tantas concessões, esta já não lhe doeu tanto. Refletiu que se houvesse algo diferente, único, que estivesse à altura dos pés de sua "luminosa galáxia", haveria de estar lá, escondido em algum canto daquele frívolo ecossistema artificial. Claro que, a contragosto, tive que acompanhá-lo.

Depois de muito procurar, encontrou uma loja especializada em coisas diferentes, como ficou conhecida por nós, onde comercializavam-se gnomos, duendes, cogumelos, estrelas-do-mar, fósseis falsificados, incensos e coisas do gênero. Eu rezando para que ninguém nos visse naquele lugar, e o Ernesto entusiasticamente dialogando com a simpática vendedora vestida de bruxinha: "olha, preciso de um presente para uma pessoa especial." "E como ela é?" - perguntou a simpática bruxinha, já acostumada a ouvir tais descrições. "Linda, uma galáxia de luz e sensibilidade e gosta muito do mar."

A vendedora foi então apresentado todos os artigos que pudessem agradar a pessoa descrita, um por um, e depois de um longo tempo - não me atrevi a olhar as horas que perdemos - , e já não havendo mais nada que pudesse ser mostrado, foi interrompida pelo Ernesto, que olhando para a parede, acima das estantes, viu ali um enorme golfinho de parafina. "Quanto custa o golfinho?" "Aquele, pendurado na parede?... Não está a venda, é decoração da loja." Mas de tanto insistir, a bruxinha, agora já não tão simpática, acabou concordando em vender o enorme golfinho azul, retirado da parede pelo Tonhão - que nada tem a ver com a crônica, apareceu por acaso.

Para encurtar a história, no dia seguinte testemunhas viram o Ernesto dentro do ônibus carregando o tal golfinho azul de parafina, tarde de um sábado escaldante, transpirando do calor e da ansiedade de ver a reação da "minha luminosa galáxia" ao receber aquele presente original. Consta-me que o carrancudo pai da moça, ao ver o nosso amigo chegado, magro como é, carregando um enorme golfinho debaixo do braço, sob um sol que botaria inveja a qualquer tuaregue do Saara, sentiu pena, e até passou a considerá-lo um bom rapaz. Agora a resposta da moça eu nunca soube, Ernesto não conta. Só sei que duas semanas depois, desolado, encontrei-o sentado à penumbra de uma mesa de bar: "acabou", disse-me. "Como assim, acabou?" "Acabou!"

Bem, o que de fato aconteceu não me interessa saber. O que importa é que o Ernesto recuperou-se da sua paixão, e está aí, cutucando-me as costas e implorando para que eu não publique este texto. Mas não adianta, vou publicar, quem sabe assim poderei me recuperar do mal estar que os ciúmes me provocaram. Afinal, nada mais faço que atender àqueles que me pedem para trazer à luz os "causos ernestianos".

 

Viegas Fernandes da Costa

Blumenau, 07 de setembro de 2002.

 

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