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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
VALMIR E SUAS IDÉIAS Viegas Fernandes da Costa O caso se deu na cidade de Chapecó, Oeste de Santa Catarina, há alguns anos, não sei precisar quantos. Ernesto, engajado que era na política partidária, filiara-se a um desses partidos de "esquerda", e tão logo pagara sua primeira mensalidade (ou seria dízimo?), começara a ser convidado para participar dos mais diversos encontros partidários, principalmente quando estes visavam a doutrinação dos jovens militantes. Não que nosso amigo fosse dado à doutrinação, consta inclusive que fora expulso da doutrina quando ainda pertencia à igreja (houve tempos em que sonhava com o sacerdócio, mas fora resgatado por Baco, ou Dionísio, como queiram), o fato é que de tanto negar participação nos encontros, já estava ficando malvisto pelos companheiros do diretório onde militava, motivo pelo qual resolvera embarcar na apertada Besta coreana para participar daquele encontro de juventude. Viagem animada, apertados no interior daquele furgão, resolveram todos os problemas do mundo, e criaram outros mais. Em meio à discussão das mais diversas teses políticas, aos comentários a respeito das deliberações do último congresso nacional e dos casos da esposa do prefeito da cidade (que pertencia à coligação que apoiaram), contavam-se também picantes piadas, onde o português era substituído pelo inimigo da "direita" e faziam-se escabrosas confissões amorosas, quase que arrancadas dos contos de Sade. Conversas regadas ao sabor do mate e dos biscoitos de água e sal, dieta obrigatória em viagens de longa distância, a fim de evitar venenosos gases. Tudo parecia muito bem, até que chegaram ao local do encontro. O alojamento que lhes destinaram era um antigo colégio agrícola localizado a alguns quilômetros da sede do município. Estrada ruim, lavada pela chuva, margeada pelo mato em ambos os lados. Parecia até que estavam sendo seqüestrados, dado o ermo do lugar. Mas chegaram, alta madrugada, insones e exaustos. Porém tão logo adentraram ao dormitório, despertaram! Isto porque o lugar onde iriam pernoitar dava a impressão de estar fechado por muitos, muitos anos mesmo. Armários devorados pelos cupins, beliches nada estáveis e colchões de espuma repletos de pulgas, percevejos e outros animais, houve até quem afirmasse ter visto enormes ratazanas, mas estas nosso amigo não viu, por isso não confirma. Isto para não falar dos banheiros coletivos, desprovidos de portas e cujos vasos sanitários serviam de abrigo para enormes nuvens de pernilongos que lá se escondiam da luz do dia. Sentar no vaso era pior do que ir à farmácia para levar injeção, e olha que o Ernesto não é homem de exagerar não, pelo contrário, é do seu feitio atenuar as tragédias cotidianas. Imaginemos então que o lugar fosse um pouco pior. Bem, no dia seguinte, ainda mais exaustos devido a noite mal dormida, embalados que foram pela sinfonia dos mosquitos no ritual do acasalamento, puseram-se a discutir a organização da juventude no partido. Discussões quentes, apaixonadas, cheias de palavras de ordem e projetos mirabolantes encaminhados pelos diversos grupos de estudo que se formaram no local mesmo. E tão quente quanto as discussões estava o clima. O calor trazendo consigo a visita dos borrachudos, estes minúsculos seres cujas fêmeas hematófagas promoviam enormes estragos na pele e nos ânimos dos militantes. Não havia fala que não fosse interrompida pelo ritual de tapas nas pernas e nos braços. Até que lá pelas tantas, o Valmir, militante metido a entendido de homeopatia e coisas do gênero, lembrou que só havia um meio de afastar os borrachudos: fumaça! Olha, não fosse o Ernesto contando, eu não teria acreditado. Descoberta a fórmula milagrosa para espantar a praga, puseram-se os militantes a acender uma fogueira no meio da sala onde aconteciam as discussões. Naturalmente fugiram os borrachudos, não são bobos de ficar comendo fumaça, e até nosso amigo decidiu-se por abandonar o recinto quando se deparou com uma enorme cortina de fumaça a sua frente, impedindo que visse o palestrante que estava do outro lado da mesa redonda. Agora, a questão é que a estratégia dera certo, afugentara-se a praga do local, motivo suficiente para que se repetisse o feito no dormitório. Novamente a idéia partira do Valmir, "vamos queimar folhas de eucalipto, o cheiro afasta pernilongo". E o que se viu foi uma verdadeira cruzada mato adentro em busca das tais folhas de eucalipto. Passado um quarto de hora, retornaram os aventureiros com dois carrinhos de mão cheios de galhos e folhas de eucalipto. Levaram - ar triunfante estampado nos rostos - tudo para dentro do dormitório, fecharam janelas, portas, buracos e... dá-lhe fogo! Boca da noite e aquela revoada de pernilongos do lado de fora. O problema foi que, chegada a hora de dormir, não havia como alguém enxergar sua cama nem como respirar dentro do recinto. A solução foi puxar os colchões para o pátio externo e lá passaram a noite entre sonhos e tapas, sob o brilho das estrelas e à mercê das vampirescas fêmeas dos mosquitos que se esbaldaram em meio a tanto sangue jovem. Ah sim, quanto ao Valmir, este permaneceu amordaçado durante o resto do encontro, e desde então o mosquiteiro é peça obrigatória em sua bagagem. Blumenau, 15 de setembro de2002.
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