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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
O RAPTO DA NOIVA Viegas Fernandes da Costa Não quero começar dizendo que estes são tempos "bicudos". Isto quem dizia era o meu avô, "ah, saudades de antigamente, onde havia mais honestidade e menos violência!" Puro saudosismo, na minha opinião, é claro. Sei que o senhor, a senhora, não irão concordar comigo, vão me abanar ante a cara um Elias Maluco, um Fernandinho Beira Mar ou um Celerado Bush como provas de que os tempos não são mais os mesmos e que o mundo se perde ante uma crise moral sem precedentes. Tenho que admitir que os argumentos favoráveis ao "antigamente era melhor" são fortes, quase irrefutáveis. Afinal, desconheço tempos em que presidiários plantavam maconha dentro de suas celas ("é boldo, seu guarda, para fazer chazinho"), como recentemente aconteceu no Rio de Janeiro, mas ainda assim continuo afirmando que o dito do meu avô é puro saudosismo, mito do paraíso perdido. Mesmo porque a violência acompanha a história da humanidade desde o momento em que esta desceu das árvores. Uma pena, é verdade, mas pavimentamos com sangue o longo caminho que nos leva à humanização. Só espero que lá na frente tenha valido a pena... Mas não é disso que quero falar hoje, já bastam as páginas policiais e os telenoticiários que nos bombardeiam com o que há de mais torpe no animal humano. Quero falar do rapto da noiva, um crime, certamente, mas de caráter muito mais ameno, como verão. A coisa aconteceu recentemente, em uma pequena cidade do Vale do Itajaí, e foi assunto durante o jantar de todas as famílias, momento sagrado em que as novidades da rua são socializadas no lar, sempre com alguns exageros. Uns diziam que a noiva não foram raptada, mas sim, seqüestrada, com direito a pedido de resgate e tudo mais. Outros diziam que fugira com o amante, muito mais moço e bonito que o noivo, apesar de não contar com um tostão nos bolsos, não queria ser escrava, a coitada. Uma terceira opinião, mais ousada e abjeta, dizia que engravidara do pastor da comunidade (ah, sim, a cidadezinha fora fundada por imigrantes alemães), mas era só hipótese, já que não havia quem ousasse crer que o Reverendo Wendeburg maculasse sua batina na vileza do sexo proibido. Afinal, o casto homem pregava ardorosamente o "amai-vos e procriai-vos" exclusivo com a cônjuge, esqueciam porém que o santo ministro era solteiro e bastante jovem. Mas eram apenas hipóteses. Em verdade, tudo o que sabiam vinha das bocas dos desocupados da choperia, aquele antro de perdição, pois sequer uma noiva fora vista. Desconhecia-se qualquer noivado nas tradicionais famílias do lugarejo, e isto só aguçava ainda mais a curiosidade e o veneno que gotejava das bocas das velhas solteironas: "só pode ser a filha dos Schneider, que criam-na solta, como mulher desviada". Mas a filha dos Schneider não podia ser, fora vista colhendo flores no jardim da sua casa e mandando beijos para o namoradinho que atendia no balcão da mercearia. Os fatos só começaram a ficar mais claros depois da chegada da polícia, que viera de Blumenau, já que a cidade era tão pacata que sequer possuía posto policial. Souberam primeiramente que não se tratava de uma noiva humana, mas de uma noiva de papel. Como assim? Na véspera do rapto aqui narrado, o departamento de cultura municipal havia recebido a visita de um importante estilista internacional. Viera da França, e queria descansar da vida agitada de estilista que vive costurando moda. Secretamente hospedara-se na pousada do Seu Silva, que era brasileiro genuíno, mistura de índia e negro, e que por isso era o pária local. Em troca do silêncio (o famoso estilista não queria que ninguém soubesse da sua chegada, queria evitar badalação, não tanto por sua fama, que ali não chegara, mas principalmente por sua preferência sexual, que apesar do século XXI, ali ainda era coisa nojenta), Seu Silva recebeu uma gorda gorjeta, dinheiro suficiente para fazer-se aceito na choperia, que só aceitava dois tipos de clientes: os que "falar deutsch" e os que não "falar deutsch", mas que possuíssem dinheiro. Enfim, depois de uma semana hospedado naquela humilde pousada, de onde só saía à noite, resolvera retornar ao seu país, não sem antes passar pela citada fundação cultural para deixar lá uma pequena lembrança de sua secreta estadia: um belíssimo vestido de noiva, com véu, grinalda e tudo que um vestido de noiva exige, confeccionado com jornais velhos e vestido sobre um manequim feminino que decorava a entrada da pousada. A peça ficara realmente muito bonita, e à distância o manequim facilmente seria confundido com uma elegante noiva de carne e osso. É claro que, ao saberem do que se tratava o crime, a decepção entre os moradores da pacata cidadezinha foi unânime, e logo todos esqueceram do acontecido, inclusive a polícia, que tinha mais com o que se preocupar do que com o desaparecimento de uma "noiva de jornal". A única pessoa afetada pelo rapto foi a Beatrice, há mais de ano noiva do Edemar, e que se viu substituída por uma fraude de papel. E não adiantava reclamar, nem envolver a família em seu drama pessoal, já que era nítida a paixão daquele que seria seu esposo por aquela que raptara durante a noite e que agora repousa em seu leito de rapaz solteiro. O que fazem? Ah, isto nem Beatrice sabe. Blumenau, 22 de setembro de 2002.
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