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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata , na Academia Virtual Brasileira de Letras e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
FALANDO EM ELEIÇÕES... Viegas Fernandes da Costa Não me lembro quando o interesse pela política partidária começou a tomar conta de mim. Acho que ainda quando criança, lá nos inícios da década de 80. A lembrança mais antiga que tenho de candidatos e partidos foi a da casa do meu avô literalmente empacotada com propaganda partidária, obra do meu tio adolescente. Meu avô, pedreiro respeitadíssimo na cidade, quase morreu quando chegou do trabalho e se deparou com dois andares de candidatos a governador, senador e deputados, todos do partido de oposição, nos últimos suspiros da ditadura militar. E não é exagero não! Até hoje o que remanesceu da mobília daqueles tempos traz a marca dos cartazes e santinhos que foram colados por aquele meu desmiolado parente no insuspeito da noite. Os clientes, quando chegavam para combinar serviço no número 509 da Rua Pará, achavam que o Seu Paulo tinha vendido a casa que abrigava aquilo que parecia ser um comitê eleitoral. O velho quase morreu de vergonha! É claro que a febre do meu tio, agora comportado professor universitário, passou, mas contaminou aquele jovem sobrinho que por diversas vezes foi cúmplice dos seus ataques aos postes de iluminação pública, transformados em verdadeiras árvores de natal (o que costuma acontecer ainda hoje), aos muros dos terrenos baldios e, acreditem, às paredes dos comitês eleitorais inimigos - numa clara declaração de guerra. Agora, o que mais me chamava a atenção eram as siglas dos partidos, que eram muitas, já que recém havíamos saído daquele bipartidarismo tacanho e artificialmente imposto pelos generais. E como meu tio só tinha propaganda do partido que apoiava, passei a colecionar a propaganda eleitoral de tudo que é candidato que encontrava, após conquistar o desgostoso aval dos meus pais. Não só o aval, mas também o auxílio, já que era pequeno e não alcançava os cartazes colados nos muros da cidade, que eram então arrancados pelas indulgentes mãos paternas naqueles momentos em que a tíbia luz do mercúrio mais lançava sombras do que clarão sobre os passeios públicos vazios. O que fazia com toda aquela papelada? Enfileirava no chão da nossa sala de estar, classificando por tamanho. E sem modéstia alguma devo dizer que era uma coleção respeitável das caras, propostas e mentiras daqueles que pleiteavam os cargos de senador e deputado catarinenses. Não sei por quê, mas colecionar propaganda político-partidária divertia-me muito. Até que num belo fim de tarde, ao retornar do jardim de infância e correr para as sacolas que guardavam aquele meu estranho tesouro, tudo havia sumido, lançado ao lixo pela minha zelosa mãe, preocupada que estava com as orientações do último governo militar, que proibia a circulação de propaganda eleitoral depois de um prazo determinado. Nem preciso dizer que a desolação tomou conta de cada nesga daquele meu corpo de criança que vivia sua primeira experiência eleitoral. Outras campanhas eleitorais vieram, e lembro-me das peregrinações que meu irmão e eu fazíamos aos locais de votação única e exclusivamente para recolher os santinhos de exóticos candidatos, jogados pelo chão na última e desesperada tentativa dos cabos eleitorais. Colecionávamos santinhos! Pena não termos guardado, hoje seriam úteis para uma análise histórica do cenário político da época. E não era qualquer santinho. Dávamos especial atenção àqueles de partidos desconhecidos, nanicos, e de candidatos com nomes esdrúxulos, como um tal de "Paranhos", cujo mote de campanha era: "não vote em estranhos, vote em Paranhos!" Pior do que isso, só mesmo aquele candidato à presidência da república em 1989 que atendia pelo nome de "Marronzinho". Mas voltando aos nanicos, devo dizer que até hoje me chamam a atenção, e me provocam até uma certa simpatia, apesar de nunca ter votado em nenhum deles e de considerá-los, na sua grande maioria, meras legendas onde se abrigam os lobos oportunistas (justiça seja feita, existem no Brasil partidos que, apesar de nanicos, possuem história, ideologia e coerência política, e por isso merecem todo o meu respeito). O tempo me fez amadurecer - um pouco - e na adolescência deixei de colecionar santinhos e de recolher propaganda eleitoral das ruas para colecionar passeatas, participações em comícios e, pasmem, até candidaturas! Sim, já fui candidato! Hoje, 6 de outubro de 2002, fui à seção eleitoral não em busca de santinhos, mas acariciando esperanças, sonhos. Não sou candidato e pela primeira vez, desde os 14 anos, não me envolvi como militante ativo em nenhuma candidatura. Mas o sentimento que me comprimiu o peito enquanto aguardava na fila o momento de votar foi único, inédito. E quando digitei os números que penso representar o novo, a dimensão de que o sonho começou a ser construido, de que alguma coisa está mudando na consciência do povo brasileiro, bafejou em meu corpo. Benfazejo bafejo que, espero, torne-se realidade! Blumenau, 06 de outubro de 2002. |