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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata , na Academia Virtual Brasileira de Letras e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
SEM MEDO DA ESPERANÇA Viegas Fernandes da Costa Escrevo emocionado, e os dedos, que aqui desejam expressar a voz, embargados de tanto contentamento, até se atrapalham com tantas letras no teclado. Assim como a grande maioria dos brasileiros, concedi-me o direito de embriagar-me de esperança, de acalentar o sonho no peito, de acreditar que a construção do amanhã ainda é uma possibilidade. E ainda há pouco, quando vi a multidão que tomou a Avenida Paulista, percebi o significado daquilo que começamos a construir hoje: um novo projeto, não só para o Brasil, mas para toda a Latina América que conosco compartilha o grande ônus da exploração imperialista. Foi a primeira vez que minhas retinas não fatigadas (mestre Drummond, que poemas não escreverias sobre este momento, no alto dos teus cem anos!?) presenciaram o momento em que esta coisa fluída, etérea até, que chamamos de esperança, materializou-se na massa humana que de braços erguidos acenava ao novo presidente eleito. De um presidente que, diferentemente daqueles que recebem o povo do alto de um populismo estéril, soube reconhecer aqueles que o antecederam e acompanharam na longa caminhada que o elegeu, e agradeceu. Agradecimentos estes que nos dão a clareza do patrimônio que é o Partido dos Trabalhadores, ainda que descaracterizado aqui e ali. Foi com reverência que escutei o cidadão, companheiro e torneiro mecânico agora presidente Luiz Inácio LULA da Silva citar Chico Mendes, a quem se dobra cada seringueira da Amazônia. Aquele Chico que afirmava "eu quero viver" no momento em que se lustrava o cano da arma que o mataria. Assim como citou o pai de outro Chico, este que hoje canta, filho do Sérgio Buarque de Holanda, intelectual liberto do preconceito e que não teve vergonha de colocar seu nome ao lado do de um metalúrgico de parca escolarização, mas de nobres princípios, nata liderança e rara inteligência, para fundar o partido que haveria de ser o instrumento para colocar no governo os trabalhadores deste país. Com esta mesma reverência escutei o nome de Paulo Freire, este professor que nos ensinou que "ninguém educa ninguém, todos se educam entre si mediatizados pelo mundo". Que grande lição tivemos hoje, não é mesmo mestre Paulo? Em silêncio de saudade ouço o nome do Henfil! Que cartuns, que cartas, que diários não dariam este momento! O Henfil que estando nos Estados Unidos na década de 1970 para tratar-se da hemofilia, deslumbrou-se com a possibilidade de dizer o que se pensava, sem policiamento, tão diferente daquele seu Brasil da ditadura, a mesma que mandara prender Lula, e deste Estados Unidos que hoje prende e deporta por se crer em Alá. Com a mesma saudade o nome de Herbert de Souza o nosso Betinho, que tão injuriado fora pela ignorância das armas, pelo preconceito, pela hemofilia e pela Aids. Este Betinho que tanto lutara contra a fome e sabia, só há cidadãos onde houver pão. Enfim, ao ouvir todos estes nomes e outros tantos, e lembrar-me de alguns mais, acho que comecei a sentir orgulho do ser humano e de ser, também, ser humano. Orgulho de pertencer ao povo brasileiro, sim, que insatisfeito ousa assumir o risco da mudança. Este orgulho senti poucas vezes. Senti quando criança, e pela televisão vi o povo se abrigando da chuva sob uma imensa bandeira nacional na campanha das eleições diretas. Não sabia muito bem o que estava acontecendo, tentava pescar as explicações na fala dos adultos, mas tinha a percepção de que algo muito importante - e nobre - acontecia. Depois, adolescente, orgulhei-me de estar entre aqueles que pintaram a cara para exigir o "impeachment" de Fernando Collor de Mello. Agora, adulto, orgulho-me de ver a festa que fazemos por termos optado pela esperança que nos traz o novo. Talvez não tenha filhos, mas espero sempre ter alunos. E quando esta geração que agora nasce estiver nas salas de aula, será com este mesmo orgulho que poderei dizer que no dia 27 de outubro de 2002 nós, o povo, não tivemos medo de apostar na esperança. Espero que até lá possamos construir um país onde seja mais fácil sonhar.
Blumenau, 28 de outubro de 2002. |