\n'; document.write(barra); } } changePage();
|
CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata , na Academia Virtual Brasileira de Letras e no site do Professor Viegas. DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
A INVASÃO Viegas Fernandes da Costa Ernesto anda saudosista. Cansa-nos os ouvidos com seus suspiros e o silêncio das histórias de sua infância, por todos amplamente desconhecidas, e a cada narrativa que nos nega, uma nova versão é acrescentada aos fatos. Ainda ontem encontrei-o mexendo nos velhos álbuns de fotografias, em meio à nuvem de ácaros e ao copo de cerveja. Reconheci-o sob o surrado boné que comprara em Porto Alegre, e que nunca largava, fizesse frio ou calor. Não fosse o boné e a mesa que ocupava, sempre a mesma, não teria me dado conta da sua presença, escondido que estava em suas lembranças. "Estou preocupada, chegou cedo, não falou uma palavra, e pediu cerveja ao invés do vinho" - alertou-me Dina, a proprietária daquele estabelecimento de boemia, tão logo entrei. "Nem mesmo quando a Cíntia lhe sorriu ele abandonou aquele ar compenetrado" - acrescentou. O alerta deixou-me tão apreensivo que quase não notei o quanto Dina estava bonita naquele início de noite, ou fim de tarde, sei lá, o corpo entrevisto naquele vestido branco com leves estampas de flores azuis, o rosto iluminado contrastando com a profunda escuridão dos seus cabelos. A filha tinha a quem puxar! Mas enfim, nada de pensar na "loba", tinha um amigo sentado em desleixo, os olhos marejados e a razão perdida em algum lugar do seu passado. Cabia-me salvá-lo do repuxo das recordações, devolvê-lo ao presente e aos cálices de vinho que já reclamavam por seus lábios. Caminhei em sua direção, cumprimentava os pândegos de plantão e, ao aproximar-me, surpreenderam-me as estrondosas gargalhadas ernestianas, tão raras naqueles últimos tempos. Sacolejava o corpo em incessantes espasmos cômicos que a todos chamaram a atenção. Era a primeira vez que viam Ernesto gargalhar, e a suspeita de insanidade que recaía sobre meu amigo reforçava-se naquele momento. "O homem não atina mais" - confabulavam - , velhos álbuns sobre a mesa do bar, e se Vinícius cantava que "de repente do riso fez-se o pranto, silencioso e branco como a bruma", na mesa 7 o que se dava era justamente o contrário. Como se podia mudar de humor tão repentinamente, isto ninguém compreendia. "Vejo que os temores da Dina não procedem. Escancaras gargalhadas ao ponto de te engasgares com a vida! O que houve?" Nada houve, explica-me, apenas recordava... Infância urbana, infância ernestiana, que de tão comum tornava-se exótica. Difícil falar da infância, desconversava, preferia o futuro, este sim, rodeado de profundas elucubrações que se davam ali mesmo, naquela mesma mesa de bar nos desvelos da madrugada. "Lembrava-me da invasão!" Pouco esclarecia. Qual invasão? Eram tantas! Só nos tempos de universidade foram algumas à reitoria, o reitor, claro, nunca recebia, informado da agitação, escafedia-se. Fora grevista, invadiu departamentos públicos! Invadiu também banheiros de restaurantes... Mas não eram estas as invasões que lhe provocaram o riso, mas uma em especial, retratada naquela foto do início da década de 1990 onde aparecia usando óculos escuros de armação verde, destes que facilmente encontramos nas bancas dos camelôs, camiseta psicodelicamente estampada e as pernas finas enfiadas em uma bermuda vermelha. Ridículo! Comecei a entender porque meu amigo evitava lembrar do seu passado. "És tu?" - pergunto tentando disfarçar o sarcasmo da pergunta. "O pior não sou eu, pior é o fato. Tentei esquecê-lo, tão vergonhoso, mas ontem encontrei-a, saiu do Paraná, veio tentar a vida aqui em Blumenau, e assim que me viu, lembrou: ' há quanto tempo, desde aquela vez lá em casa!' Impiedosamente o fato não estava sepultado, pelo contrário, servia como referência, marcava nosso último encontro. Desastroso! "Estou curioso!" - pedi a Cíntia que me trouxesse algo para comer, ela que escolhesse o lanche, para beber, vinho, como sempre. "Não é nada tão interessante assim. História comum. Acontece em todas as famílias, mas no meu caso havia um agravante: a moça! Tão linda! Achava que era minha prima, sabe, desconfio que tenho um quê de incestuoso. A primeira vez que a vi deveria ter lá uns doze anos, jogamos baralho, propositalmente perdi, e passei as semanas seguidas esquecido das revistas proibidas que guardava sob o colchão. Foi minha terceira paixão; a primeira ainda no jardim de infância, dei-lhe uns beijos pirralhos no ônibus, professora soube, castigo e separação. Depois a segunda, colega de sala, ginásio, sentava-se ao meu lado, pelas mangas da camiseta via o desabrochar dos seus seios, perdia-me em ereções e o desespero travava-me quando era obrigado a resolver as contas no quadro. Dona Mariana percebia meu estado, seguia atentamente meus olhares, chamava-me com gosto! Por fim ela, um ano mais velha, graciosa naquela adolescência de moça do interior, seus olhos como espelhos que me refletiam a cara de abobalhado." "E a invasão?" "Chego lá! Quando anunciaram que passaríamos as férias de fim de ano no sudoeste paranaense, em casa de uns tios, delirei. Ela morava perto, cidadezinha vizinha, fazia dois anos que não a via, mais crescida e bonita, quem sabe não faríamos uma visita, a oportunidade de novamente perder no jogo de cartas, de ver-me refletido em seus olhos, azuis, não do azul do mar, finito, mas do etéreo azul celeste, tão vasto, do tamanho do mundo. Fomos! Parentada religiosa, tio pastor, família grande. Fazia questão de acompanhar meu tio nos cultos, ermos cantões, a velha Brasília marrom chorava e desmontava um pouquinho a cada buraco: 'espera um pouco, vou amarrar o escapamento, volto já.' E via o 'santo' homem desvencilhar-se dos cadarços para utilizá-los em suas lidas de mecânico. Patético!" "Acompanhavas teu tio aos cultos? Mas não és ateu?" - força de expressão, não que Ernesto fosse ateu, tinha inclusive fundado sua própria religião, pouco ortodoxa, é verdade, o que mudava era a concepção de fé e deus que possuía. Mas enfim, deixo para contar isto outro dia, ou nunca, quem sabe... "Ia por causa dela, esperava encontrá-la em um banco qualquer de uma daquelas feéricas igrejas, prédios arrancados das velhas fotografias de revistas alemãs. Nunca estava! Apenas antigos patriarcas e suas esposas, vestindo seus ternos surrados e escondendo bocejos sob as natalinas barbas. Angustiava-me sua ausência, até aquela fatídica noite! É verdade que ansiava revê-la, estou me repetindo, mas não naquelas condições. Esperava um encontro casual do tipo 'oh, você por aqui, quanta coincidência!' Mas qual o quê! Foi invadindo mesmo! A família assustada, mãe grávida, gravidez de risco, o batalhão chegando. Isto porque meu tio havia decidido que a janta seria na casa da família Pastro, que de nada desconfiava. Éramos quase vinte bocas a lotar a decadente Brasília marrom e a velhusca Belina azul, os rostos dos primos mais novos comprimidos no vidro do porta-malas daquela banheira motorizada. Tentei me esconder, alegar uma volta pelas imediações, mas não teve jeito, fui reconhecido por ela como um dos invasores da sua residência, afanador da sua paz no anoitecer do domingo. Ela de avental, ajudando a mãe, põe a mesa, tira a mesa, lava a louça e haja paciência! Família de pastor é assim, vai ficando, abençoando a casa. Nem preciso dizer que sentia-me um verdadeiro verme esmagado por aqueles olhos azuis." " E depois?" "Depois nada. Fomos embora, nunca mais a oportunidade de pedir-lhe desculpas, dizer que fui arrastado em minha inocência, que de nada sabia ou, melhor, que sua família não soubesse da nossa visita. Enfim, afoguei esperanças e retornei a Blumenau. Dez anos depois ela aparece, 'há quanto tempo, desde aquela vez lá em casa!' Ela lembra, e tinha como esquecer?" Concluídas as reminiscências, levantou, pagou a cerveja, sorriu para Cíntia, para Dina também, e saiu. Passos embriagados, boné na cabeça e o sentimento de frustração. Sabia, sobre seu passado nada deve me contar, afinal, vira crônica. Blumenau, 10 de novembro de 2002. |