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CRÔNICA DA SEMANA

A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata , na Academia Virtual Brasileira de Letras e no site do Professor Viegas.

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

COISAS DO NEPAL...

Viegas Fernandes da Costa

Quando a amiga Urda Alice Klueger, importante escritora e perspicaz historiadora, contou-me, não quis acreditar. Afinal, sou também vítima da baixa auto-estima que afeta os países latino-americanos, por isso a tendência de desconfiarmos quando nos dizem que temos algo de bom além do futebol e do carnaval. Só agora, diante de tão grande evidência, permito-me olhar para nosso próprio umbigo e considerá-lo tão ou ainda mais belo do que o umbigo dos outros, ao menos no que diz respeito aos serviços de correios. Qual a evidência? Quanta pressa! Ei de contar, mas antes tenho que "enrolar" um pouco, sabe como é, preencher o espaço da crônica com aquelas futilidades que só servem mesmo para ocupar o nosso tempo, sempre tão escasso.

Mas como ia dizendo, contava-me ela que por diversas vezes pôde constatar a falta de competência dos correios em outros países, e fala com conhecimento de causa, já que não são poucos os países que conhece. O episódio mais marcante a atestar suas palavras, deu-se quando da sua visita a Cuba, país que verdadeiramente admira. Antes de retornar ao Brasil, foi abordada por um simpático moço que lhe trazia uma carta, não de amor, como pudera imaginar, mas para os familiares que moravam em algum canto perdido do imenso território tupiniquim. Naturalmente não esperava que ela entregasse a missiva em mãos, tinha total consciência da vastidão territorial brasileira, mas pedia a nossa amiga que fizesse a gentileza de postar a correspondência em nossos correios, pois sabia, se o fizesse lá, em sua heróica ilha, passariam-se muitos dias até que os familiares pudessem ler suas linhas, isto é, se estas linhas chegassem a sair do seu país e se não se perdessem em algum lugar do Caribe. Claro que ao ouvir a história, considerei um tanto quanto exagerada a confiança que nosso companheiro cubano depositava em nosso serviço postal, mas como disse, curvei-me às evidências. Quais evidências? Puxa, quanta curiosidade, quanta insistência! Pois bem, contarei...

Ainda ontem encontrei o Ernesto mergulhado nos jornais, hábito ao qual pouco se dedica pois prefere as conversas à imprensa. Estava lá, boné comprado em Porto Alegre na cabeça, ocupando a já cativa mesa sete do "Bar Farol" e com os olhos enfurnados nas notícias internacionais.

"O que sabes do Nepal?" - perguntou-me ao me ver sentar.

"É um reino, não é? Um pequeno país cravado no Himalaia, famoso por abrigar a cidade de Lumbini, onde teria nascido Sidarta Gautama, o Buda, e por contar com o Monte Everest. Por que a pergunta?"

Na verdade, um dos muitos hobbys "ernestianos" é estudar países que nos são exóticos. Não é por acaso que enquanto a maioria de nós deseja conhecer países da Europa e América do Norte, Ernesto sonha em visitar Nauru. Onde fica??? Olha amigo leitor, amiga leitora, sugiro a consulta de um bom atlas para poder achar esta que é a menor república do mundo. O interesse por Nauru eu já conhecia, agora o Nepal é novidade, principalmente porque caminhar por lá não é nada fácil, país de montanhas e trilhas cobertas de roliços seixos e escorregadia neve. Certamente não podia estar interessado em visitar tão ermo lugar, principalmente porque de caminhada só mesmo aquela que leva ao bar. Daí a minha curiosidade: "Por que a pergunta?"

"País interessante este! Não sei como, mas alia monarquia e comunismo, se bem que ainda ontem soube que o Partido Comunista Nepalês andou pegando em armas... Agora, o que mais me chamou a atenção foi esta reportagem" - e mostrou-me a página que lia, no título principal, a frase: "Nem era tão importante assim!". O que não podia ser assim tão importante? "Quando li, lembrei-me do que nos disse a Urda sobre os correios brasileiros" - completou.

Pois está aí a evidência! A notícia falava de uma mulher de 34 anos chamada Padma Maya Gurung, que desde 1993 estava presa por assassinato no distrito de Dhantuka (êta nome complicado de escrever!). A quem matou ou por que matou, o jornal não informava, mas consta que a prisioneira ficou lá, detida, seis anos além da pena por culpa do "célere" correio nepalês, que levou todo este tempo para entregar a carta de libertação expedida pelo Supremo Tribunal em 1997! O amigo leitor, a amiga leitora, pode estar pensando que o mesmo se deu em função da distância, não é mesmo? Mas, qual o quê, Katmandu (a capital do país) dista apenas 290 quilômetros do local em que Padma cumpria pena, portanto, sem desculpas, é incompetência mesmo!

"É meu amigo, coisas do Nepal!" - concluiu Ernesto ao fechar o jornal.

Blumenau, 25 de novembro de 2002.

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