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CRÔNICA DA SEMANA A "Crônica da Semana" é publicada semanalmente no site A Barata , na Academia Virtual Brasileira de Letras e no site do Professor Viegas.DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
MORREU DE UNHA Viegas Fernandes da Costa -
Morreu de quê? -
De unha, o coitado! -
Morreu de unha? -
Moço, é surdo, é? Já não falei que morreu de unha? Por que tanta insistência?
Era parente do falecido? Acostumara-se
a ver as procissões fúnebres, vizinho que era do cemitério. Gostava até! Era
seu passatempo preferido adivinhar a importância do falecido pela quantidade de
pessoas que acompanhavam o féretro, mas dificilmente descia até as sepulturas.
Olhava da janela do quarto mesmo. Se naquele dia descera, foi porque ficou
intrigado com os turbantes e com o colorido das roupas que mesclavam tons de
alaranjado, branco e azul. As mulheres de olhos profundos e os homens de rostos
hirsutos. Não eram brasileiros. -
Desculpe, não quis incomodar. Só fiquei intrigado. Pessoa tão boa, não é
mesmo, como foi morrer de unha? Não dá para entender! -
E na lua-de-mel! Tão feliz, o coitado! Meses e meses planejando a viagem com a
noiva, o desejo de conhecer o Brasil, para morrer assim, de unha! Se tivesse
ficado na Índia, pelo menos poderíamos elevar sua alma para o céu; aqui não,
aqui fica sepultado na terra, comendo barro! -
E a esposa, como está? -
E como poderia estar?! Traumatizada, não poderia ser diferente! Sente-se
culpada, pensou até em suicídio. Mas quem poderia imaginar que tal coisa
pudesse acontecer? Um acidente! -
Acidente? -
Claro! Ou você acha que foi premeditado? Conheço-a e sei que amava seu
parceiro. Se há algum culpado nesta história, este só pode ser o famigerado
do Vatsyayana. -
Que era o amante, suponho. -
De onde você é, o cara? Já não te disse que ela o amava? O tal do Vatsyayana
é o cara que escreveu o tal do Kama Sutra. Conhece, não conhece? O finado aí
era hindu, e buscava encontrar a satisfação sexual sem se tornar escravo do
prazer. Por isso vivia lendo o tal livrinho milenar, estudando as posições,
aprendendo a arte das preliminares. -
Sei... sei... -
Por isso que gosto tanto do meu marido, sabe? A gente se conheceu lá em Nova Délhi,
ele é brasileiro, mas morava lá. Voltamos para o Brasil depois que casamos, na
Igreja Católica, e aí sabe como é, né, homem casto, certo, não fica lendo
essas coisas de Kama Sutra. A gente deita e entrega a alma. Pelo menos estamos
vivos. Não fico que nem a coitada aí, tão novinha e já viúva. -
Desculpe a minha insistência, senhora, mas ainda não atinei com a idéia do
cidadão aí ter morrido de unha. Foi infecção, tétano contraído ao ser
arranhado pela esposa nos desvarios do amor? -
Asfixia! -
Asfixia? - É! Aprendeu com Vatsyayana que as mulheres adoram ser beijadas nos pés. E matéria aprendida é matéria aplicada. Na noite de núpcias, antes mesmo de desnudarem-se, depois de terem acendido incensos pelo quarto e de terem deixado o aposento em sutil penumbra, o infeliz, naquele momento transbordando de felicidade – ora, veja só como são as coisas - , deitou a noiva sobre a cama e ajoelhou-se a seus pés. Entre a sucessão de beijos e juras, tirou-lhe os sapatos e passou a massagear com os lábios seus dedos. Ela delirava, jamais havia tido seus pés tratados com tanto carinho. E de repente, aconteceu! Estava morto! Havia engolido a unha. -
Engolido a unha? -
É, unha postiça, coisa de mulher que quer ficar ainda mais bonita para o
marido no leito de núpcias. Ela bem que percebeu o coitado guinchando,
debatendo-se, mas inexperiente como era, achou que fossem as tais “convulsões
de amor”. Só percebeu quando o pobre caiu durinho no chão, morto. Na
manhã seguinte estava lá, matéria de jornal, notícias populares: “hindu
morre asfixiado por unha postiça na noite de núpcias”. Blumenau,
21 de dezembro de 2002.
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