A DESMORALIZACAO DE DRACULA

CRÔNICA DA SEMANA

Voltar ao Índice de Crônicas

DO MESMO AUTOR

Poemas

Contos & Crônicas

Artigos

Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

A DESMORALIZAÇÃO DE DRÁCULA

 

Viegas Fernandes da Costa

 

Quando garoto, adorava ler histórias em quadrinhos de terror. Claro que tinha que fazê-lo às escondidas, no avançado da noite, o que tornava a leitura mais estimulante, já que este tipo de gibi era injustamente perseguido pelos meus zelosos pais. O que mais me atraía nestas revistinhas, além do terror, eram os traços de erotismo com que se carregavam as ilustrações. Mulheres belíssimas semi ou totalmente despidas apareciam aos montes, e sempre dispostas a entregarem seus corpos aos chamados da lascívia. Talvez por isso preferia as revistas de vampiros, especialmente uma, “Almanaque do Drácula”, que apresentava desenhos muito mais reais. Com o tempo comecei a admirar Drácula, que de repelente morcego transformava-se em bem sucedido conquistador. Ah, como desejava também possuir aquele olhar hipnótico, aquela voz persuasiva que arrastava atrás de si um enorme séqüito de belíssimas ninfetas.

Naqueles tempos morava numa antiga casa de dois andares, e meu quarto ficava justamente no sótão. Enquanto mergulhava no secreto das histórias, acompanhava-me o ruído das patas dos morcegos sobre o forro de madeira e o piar das corujas que tagarelavam sobre a fiação que corria à altura da janela do meu quarto. Todo aquele cenário contribuía para aumentar a sensação de medo que me consumia os nervos e me atribulava os intestinos. Devo dizer que não acreditava naquelas forças malévolas, mas por via das dúvidas seguia as orientações da minha avó: “se aparecer um morcego, sacode uma varinha bem fina, e o bicho vai de encontro a ela”. Por isso mantinha sempre algumas varinhas ao alcance das mãos. Não era prudente brincar com estes seres quirópteros; apesar do aspecto de fragilidade que carregavam consigo, um deles poderia ser o príncipe das trevas. Quando, mais tarde, descobri que aqueles terríveis mamíferos hematófagos satisfaziam-se em comer as frutas do pomar e a sugar o sangue das frágeis galinhas carijó, confesso que fiquei decepcionado. Esperava mais empenho e aristocracia daqueles filhos das trevas. Tivesse o endereço do príncipe Vlad Tsepesh Aka Dracula, e denunciaria a pusilanimidade destes seus representantes brasileiros. Onde já se viu, vampiros chupando sangue de galinhas!

Quando adolescente e menos dependente das varinhas, assisti a um documentário que falava sobre a Wallachia, lugar governado pelo príncipe Vlad Dracula no século XV. As ruínas de um castelo no alto de um monte ensolarado e o enorme tapete verde que se estendia nos campos em nada lembravam aquela Transilvânia tenebrosa e embolorada que as histórias em quadrinhos retratavam. Fiquei decepcionado com o engodo. Sequer vampiro o tal de Vlad era! Tudo invenção do Bram Stoker, que se apropriou dos mitos que ainda rondam o nome de Dracula, déspota que combateu os turcos-otomanos que tentavam anexar seus territórios e que ficou conhecido pela crueldade com que tratava seus inimigos – daí a alcunha de “O Empalador”. Bem, ficava como consolo saber que a lenda dos vampiros é muito mais antiga do que a história criada por Stoker. Circulam hipóteses que atribuem a origem desses seres imortais a algumas regiões da Ásia, talvez do Norte da Índia, e nessas histórias o vampiro está sempre associado à figura do morcego, personificador do mal, ainda que chupador de frutas e galináceos em alguns casos. Mas acredito que depois das últimas descobertas os vampirólogos ver-se-ão na obrigação de rever os seus conceitos, e tudo por culpa de um australiano chamado Robert Medcalf.

O fulano aí descobriu que os tão temidos morcegos vampiros, aqueles que chupam sangue e que se resumem a apenas três espécies, das mais de uma centena que existem, podem salvar vidas ao invés de eifa-las. Robert observou que a saliva do dito cujo segrega uma substância que consegue dissolver coágulos sanguíneos. Daí a idéia de produzir um medicamento a partir da saliva destes animais para tratar de pessoas que sofreram de algum derrame cerebral. Impressionante não! E eu que me munia de varinhas para dar combate a tão inocentes bichinhos!

Cabe agora aos ficcionistas e estudiosos dos seres das sombras encontrar um novo animal que possa abrigar a lenda de Drácula, já que o morcego, ah... este está muito mais para enfermeiro do que para plantonista de banco de sangue.

 Blumenau, 12 de janeiro de 2003.

www.viegasdacosta.hpg.ig.com.br