CIÚMES DA ESTRELA

CRÔNICA DA SEMANA

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

CIÚMES DA ESTRELA

Viegas Fernandes da Costa

Quando se está apaixonado, o que se há de fazer senão escrever sobre a paixão? Pois é! Desculpe-me o amigo, a amiga, se este assunto já está enchendo, mas é sobre este sentimento que aproxima duas pessoas que quero rascunhar hoje, até porque ontem esbarrei com o Faustino, que me contou sua história, coitado!

Antes, porém, devo parecer culto. Esse negócio de paixão deixa-nos com este ar de... bocó. Então vou começar a crônica fazendo uma citação, dessas que a gente tira daqueles livros de frases célebres para todas as ocasiões, tão preciosos aos literatos, oradores e políticos que desejam arrotar erudição. E percebam que é citação de peso, pois vem de Platão. Diz este célebre filósofo que o amor é um grave distúrbio mental. Bem, vindo da autoridade de um dos pilares da filosofia ocidental, não vou nem discutir a afirmação. Quem a este insone escriba lê neste momento, que tire suas próprias conclusões.

Mas vamos ao Faustino, afinal, é dele que devemos falar, ou melhor, da sua desventura amorosa.

Nosso amigo é dessas figuras exóticas, de rosto chupado, que se esconde por trás das grossas lentes do seu óculos. Magrinho de ser levado pelo vento, e acho até que é devido a esta sua característica física que bocas desocupadas e ardilosas dizem que vive andando nas nuvens. Se anda não sei, mas Teresa vivia repetindo que ele é um anjo. Tanto repetiu que certo dia Faustino começou a arrastar asa para cima dela, e aí já viu né? Não deu dois anos e eles estavam namorando.

Ué, estranhou o tempo? Dois anos? Que nada! Nosso amigo é tímido, mas quando cisma na coisa, não desiste, e todo esse tempo levou aporrinhando o noivado da moça. Acabou levando a melhor. Mas deixemos disso e vamos logo ao que interessa.

Encontramo-nos em plena Rua XV, debaixo daquele bruta calor. Vinha curvado, escorrendo sua magreza sob o sol, sempre tão impiedoso nesta época do ano. Eu disse curvado? Não, não! Vinha quase que se arrastando, assumindo para si o castigo de Atlas de carregar o mundo nas costas. Por pouco que não passava sem me ver! Quando viu foi aquela frescura de botar inveja no mais fresco dos frescos: abraços, sorrisos, cumprimento de mãos, tapinhas nas costas e mais abraços. Passada a euforia, colocou-me a par da desdita que lhe afligiu:

- Soubeste que descobri uma nova estrela?

Você sabia? Eu também não! Mas para não parecer alheio a seus feitos, afirmei que tinha lido a respeito e que muito me lisonjeava um amigo assim, descobridor de estrelas.

- E dizer que ninguém acreditava que aquele meu hobby solitário viria a ser coisa séria!

Isso lá era verdade! Ninguém acreditava mesmo! E como acreditar? Quando adolescente inventou que seria astrônomo e deu um jeito de comprar aquela velha luneta que guarda até hoje. Como crer que pudesse ver alguma coisa com aquela lunetinha mixuruca que não fosse o strip-tease da vizinha da frente?  Mas via. E enquanto a rapaziada saía para a gandaia, lá ia ele, luneta debaixo do braço, montado em sua bicicleta, para os altos do Spitzkopf. Ficava lá, madrugada inteira, sentado sobre uma pedra, perscrutando o céu. O hobby ficou sério, e com o tempo montou ele mesmo seu telescópio particular. Nada que se comparasse ao Hubble, mas já era melhor do que aquela lunetinha que tanto sofrera em suas mãos.

- Foi naquela noite de inverno, céu tinindo de limpo! Tava lá, olhando as constelações, a Via-Láctea, e ela não desgrudava dos meus olhos, piscava para mim. Piscou a madrugada inteira. Procurei em tudo que é mapa celeste, nada! Só podia ter descoberto uma nova estrela! Quer dizer, nova para nossos olhos, por que ela mesma já é uma senhora de alguns bilhões de anos.

A narrativa que se seguiu, a respeito das datações dos corpos celestes, levou uns bons quinze minutos, tediosa que só ela, e por isso privo-me de transcrevê-la aqui. Ouvi pela amizade e também porque não tinha mais nada para fazer. Agora, que Faustino entusiasmara-se, ah, isto sim! Entusiasmo arrefecido quando chegou na razão de todas as suas angústias, no motivo pelo qual se esbandalhava pelas ruas como cão sem dono, com o coração esbagaçado.

- Sem me caber de tanto contentamento, fui logo anunciar a descoberta à comunidade científica.

- E eles reconheceram a descoberta? – perguntei.

- Não só reconheceram como me deram o direito de batizá-la, o que é normal quando se descobre um novo astro. Quem descobriu dá o nome.

- Sei! E até posso adivinhar o nome que você deu...

- Exatamente! Teresa! Tem homenagem maior, uma estrela com seu nome?

- Não, acho que não. Ela deve ter se derretido toda. Afinal, se mulher se derrete por flor, não vai se derreter por uma estrela?

- Qual o quê! Eu também pensava assim: batizo de Teresa I, uma homenagem, ela vai gostar...

- E?

- Detestou! Só faltou me jogar aos cachorros. Disse que se a estrela era a Teresa I, ela o que seria, Teresa II? E nem adiantou eu argumentar, dizer que todas as noites olharia para o céu e procuraria Teresa dentre todas as outras. Até para o Manuel Bandeira apelei, sabe, “Vi uma estrela tão alta. Vi uma estrela tão fria!” Não me deixou nem terminar. “Fria! Seu cafajeste! Além de tudo ainda sou fria?” - interrompeu-me ela aos gritos. Só não apanhei pela graça da minha sogra, tão boazinha a velhinha, que apareceu na hora em que Teresa já me ia dar uns sopapos.

Bem, estava explicado tanto abatimento em nosso amigo, que ainda me contou umas e outras coisinhas e se despediu. Devo confessar que senti pena ao vê-lo seguir seu caminho. Logo ele que parecia até assexuado, sofrendo por amor! Coitado!

Se o amor é um grave distúrbio mental, como disse Platão, isso eu não sei; mas que Faustino ainda vai cometer uma loucura, ah isso vai!

 Blumenau, 28 de janeiro de 2003

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