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CRÔNICA DA SEMANA DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
AQUELES QUE DESCONHECEMOS Viegas Fernandes da Costa Aquele homem que cria ovelhas... Nada sei daquele homem, da sua fé, dos seus medos. Sei tão somente que é um homem que cria ovelhas no deserto, vagante na aridez das pedras, por onde tange seu rebanho. Aquele
homem que cria ovelhas e se esconde sob os panos... Nada sei dos seus pés, da
sua história, da poeira que recobre suas sandálias, das cicatrizes do corpo tão
bem resguardado do Sol. Do seu povo tudo desconheço. No entanto, é um homem, e
há sempre alguma razão para que crie ovelhas, não há? E
aquele homem que cria ovelhas some no horizonte, escaldante horizonte. Vai-se
caminhando sobre um solo que parece evaporar. - * - Aquela
criança tem o rosto sujo e os olhos embaçados. Fome? Nada sei daquela criança
de rosto sujo e olhos embaçados, da sua fome, dos seus medos, da sua família.
Parece-me prostrada à sorte, aquela criança, sentada sobre o barro, entre ruínas,
as pernas descobertas, o sexo nu de criança exposto aos vermes. -
* - Aquela
mulher tão vestida de negro! Nada sei daquela mulher tão vestida de negro, dos
seus olhos que fixam resignados o chão. Nada sei dos seus desejos, dos seus
filhos, do marido, se a eles tiver. Nada sei do seu dia, da sua faina doméstica,
dos afazeres que a obrigam a enfrentar o público das ruas, Aquela
mulher tão vestida de negro... Nada sei da sua educação, dos pudores que lhe
enrubescem as faces, dos costumes que lhe toldam as vontades e lhes formam o caráter.
Nada sei do cheiro que exalam seus cabelos ou dos aromas que lhe impregnam a
cozinha. E
aquela mulher tão vestida de negro caminha depressa, parece fugir, parece
correr, e nada sei das razões que lhe fizeram despertar pela manhã e enfrentar
o mundo. -
* - São
personagens, tão somente, deste drama. Se vistos de perto, são homens,
mulheres e crianças. Têm fome, têm sede, têm dor, têm sono, têm sonhos
também, pois são humanos. Se vistos de longe, são figuras que se movem, que
se esbarram. Agora, se vistos do alto... Bem, se vistos do alto, não são
vistos, não são nada, quando muito um pequeno ponto sobre a terra. Lá
debaixo encaram o céu, os olhos atraídos pelo ruído. É doce o ruído! Movem
os olhos e buscam Alá que parece chamá-los. E Alá é luminoso, Alá vem rápido,
e num átimo de segundo não há mais olhos que fixam o céu, nem aquele criador
de ovelhas, nem aquela criança de rosto sujo e olhos embaçados, nem aquela
mulher tão vestida de negro. Há apenas corpos inertes e despedaçados que lá
do alto não se podem ver. Há apenas a terra estuprada que se entrega em
enormes crateras. Há apenas o sonho que se perdeu para sempre.
E nós nem os conhecíamos, e já eram culpados por aquilo que não
fizeram! -
* - Não
é apenas porque tememos o ruído dos canhões e o zumbido dos mísseis que
cortam o céu que somos contra. Não é apenas porque o petróleo falta e os preços
sobem que somos contra. Não é apenas porque nos repugna o sangue que se
mistura à terra violada que somos contra. Mas é também porque matamos aquele
homem que cria ovelhas, aquela criança de rosto sujo e olhos embaçados, aquela
mulher tão vestida de negro, que somos contra! Somos
contra, senhor bush, e o minúsculo é proposital, pois teu nome não tem honra,
teu nome é vergonha, e queremos que o saibas. Bem como o nome daqueles que te
seguem, execráveis nomes, e ainda que se apaguem de vossas futuras lápides
estes nomes vis, a história não os apagará. Serão sempre lembrados no rol
daqueles que semearam a morte. -
* - Aquele
homem, aquela criança, aquela mulher... e nós nem os conhecíamos! Blumenau, 13 de fevereiro de 2003.
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