O PEIXE E A FRIGIDEIRA

CRÔNICA DA SEMANA

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

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O PEIXE E A FRIGIDEIRA

 Viegas Fernandes da Costa

Hoje prometo ser breve. Breve para contar a história que ouvi da boca de Rosamar, uma aluna do curso noturno. Sim, boquiabertos amigos, este tosco escriba que vos fala também leciona História. Bem... bem... E se Paulo Freire, este saudoso educador, já dizia que “ninguém educa ninguém, todos se educam entre si mediatizados pelo mundo”, desta vez a confirmação do aforismo veio desta minha aluna, já mãe de família.

Como já é habitual, início de ano letivo, primeiro contato com os novos alunos, e destes com o novo professor, estávamos discutindo a importância de se conhecer a nossa própria história como requisito fundamental para compreendermos os fatos históricos mais amplos. Diálogo vai, diálogo vem, e lá estávamos desvelando episódios pregressos das nossas famílias, escavando velhas fotos, decrépitos documentos e tentando relembrar das conversas que mantínhamos com nossos avós quando ainda afagávamos suas idosas pernas com nossas tenras nádegas de crianças. Ricos estes momentos em que aprimoramos nossa identidade com os novos elementos que conseguimos resgatar.

Lá pelas tantas, Rosamar me aparece com esta pérola de história ilustrando a aula e que a partir de hoje usarei como exemplo da importância de cultivarmos o hábito de nos olharmos com estranheza, de refletirmos sobre nossos próprios atos e buscarmos compreendê-los, também, sob a luz do passado. Não sei dizer se o que ela me contou é original ou se fruto do folclore. Não sei se inédito ou resgatado das páginas de algum conto cuja leitura já se perdeu. Só sei que o narrado por sua lembrança e boca vale a pena ser aqui recontado.

Contou-me ela que uma certa mulher, ao fritar peixes, possuía o estranho hábito de lançá-los à frigideira sem a cabeça e sem o “rabo”. Ao marido o hábito desagradava, já que o que mais lhe fazia salivar ao sentir o aroma de peixe frito era justamente a expectativa de poder degustar a cabeça do escamoso aquático. O “rabo” pouco lhe importava se fosse parar na lixeira ou na boca daquele gato seboso que tanto detestava. Para o diabo com o “rabo”! Mas a cabeça, ah, esta não! Seria capaz de disputá-la a tapas com o felino que a esposa insistia em alimentar. E justamente para não se ver em situação tão ridícula é que resolvera questionar a esposa, no que esta respondera: “faço como ensinou minha mãe!” – tá aí, a sogra era a culpada.

Dias depois foram almoçar na casa da sogra, e ele não perdeu a oportunidade de questionar a mãe de sua esposa a respeito daquela estranha prática culinária de excluir o “rabo” e a cabeça do peixe. Seria uma superstição de família? Feita a pergunta, a sogra repetiu a resposta da filha: “faço como ensinou minha mãe!” – e acrescentou – “se mamãe fazia, então é porque não se deve comer o ‘rabo’ e a cabeça, é certo que fazem mal para saúde”. Oras, o “rabo”, como já dissemos, é sempre “rabo”, não aprecia, agora a cabeça, fazer mal para a digestão, essa não! Só podia ser intriga da velha que, como reza a tradição, detestava-o. Por isso resolvera que iria tirar a limpo a história com a matriarca da família, a octogenária avó da mãe dos seus filhos.

Encontrou a idosa senhora refestelada em sua cadeira de balanço – ai, ai, estes clichês! Fazia seu tricô, e cumprimentou-o sob as grossas lentes do velho óculos com armação de tartaruga. Ao ouvir a pergunta, riu-se até não poder mais.

- Então quer dizer que minha neta ainda corta o “rabo” e a cabeça dos peixes? Ora, ora, veja só!

- É, corta! Só não entendo o motivo. Parece que o hábito foi copiado da senhora.

- É verdade! Sempre cortei estas partes do peixe, mas não era por aversão não. Simplesmente não havia como fritar o peixe inteiro na frigideira minúscula que possuía, e por isso fritava apenas o tronco do animal.

Tão simples! A frigideira era pequena. Conhecida a origem da tradição, não havia mais motivos para que a esposa continuasse desperdiçando a saborosa cabeça do peixe, que passaria a ornar o prato e afagar os beiços do esposo. E isso graças à investigação histórica da curiosa prática.

Foi esta a história que Rosamar me contou. Se sua ou de outro autor, como já disse, não sei. Sei apenas que serve para ilustrar o quanto fazemos por mera repetição, e para mostrar que o conhecimento de nossa história pode nos ajudar, inclusive, a evitarmos que se desperdice a cabeça do peixe com um gato seboso e agora também esfomeado. ... Coitado do gato, há de se contentar apenas com o rabo!

 Blumenau, 28 de fevereiro de 2003.

 

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