A MORTE DO POETA

CRÔNICA DA SEMANA

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

viegasfc@terra.com.br

A MORTE DO POETA 

Viegas Fernandes da Costa

Encontraram o poeta pela manhã, afogado na poça formada por seu próprio sangue. Cortara os pulsos com a palavra, afiada como navalha.

Figura interessante aquele poeta que experimentava poesia no café da manhã, na falta de pão. Mirradinho como ele só, perambulava pelas ruas com seu livro sob as axilas. Até já ia dizer que era poeta sem livros, mas tinha, um só, que vendia ou trocava por um quilo de queijo na feira. Livro magrinho, fotocopiado e grampeado no escritório do amigo. Poeta marginal, palavra marginal naquela cidade legítima e fofoqueira.

Ultimamente vivia alegre. Emprestaram-lhe uma tapera urbana onde co-habitava com os cupins – carne para o almoço. Tinha até pequeno quintal nos fundos da... residência? Verdadeiro matagal de onde saíram gambás e cobras tão logo resolvera ceifá-lo. Ernesto chegou a visitá-lo em sua nova moradia; testemunhou o sorriso enorme que o amigo mantinha emoldurado no rosto macilento enquanto mostrava os calos que lhe cobriam a palma da mão: “minha caneta é a enxada, escrevo poemas na terra e nos caules tenros deste mato, que desbasto” – comentou contente. Por isso não se conformava, o corpo exangue do amigo, a palavra abandonada no chão! Por quê?

Ah sim, desejam saber o nome da vítima (?). Não sei, e está aí parte do seu mistério: tinha nome? Nem Ernesto o sabia. E que importa? Bastava alguém dizer que se tratava do poeta, pronto, estava identificado. Sua existência não pedia nome, figura pública que era. E ainda que mal visto, parasita sem eira nem beira, sem origens - e como são importantes as origens naquela cidade legítima e fofoqueira! - , sua morte foi sentida, não como alívio, como se poderia imaginar, mas como peso de ausência, como peso de saudade. Talvez remorsos, mas duvido da existência de tal sentimento naquele deserto repleto de pessoas, sólidas construções e inventadas tradições.

Também se desconheciam idade, filiação materna e paterna, naturalidade. E não era o povo que desejava saber o que antes nunca o intrigou, mas o jornalista medíocre encarregado da notícia. Deparou-se ele com a falta de dados, não podia noticiar a morte do poeta em insignificante nota, incumbido que fora de preencher uma página inteira. O que não faz a falta de assunto! Sabia-se apenas ser do sexo masculino, as prostitutas o confirmavam. Ah, as prostitutas! Com que prazer entregavam-se aos seus versos e aos seus lábios. Com que ansiedade disputavam o direito de inspirá-lo. Voluptuosas, confiavam seus corpos nus a sua inspiração, e sentiam-se preenchidas de metáforas! Atendia a todas, a cada uma dedicava um poema inédito que cuidadosamente traçava sobre os seios, sobre o horizonte do ventre, no interior das coxas experientes; e amanhecia embriagado, o hálito inconfundível de verbo lhe azedando a boca.

O sentimento que provocava na multidão legítima e fofoqueira misturava desprezo e admiração. Impossível não se incomodarem com sua presença, sempre aquele hálito forte de verbo que impregnava os lugares por onde passava. Por isso um poeta: incomodava! O mesmo olho altivo que o desprezava também o espiava admirado, de um admirado invejoso, de um admirado que não conseguia entender aquele andarilhar sem sentido. Quando viam o livrinho sob as axilas, corriam ansiosos, compravam, e no privado da solidão, aspiravam o suor impregnado nas páginas. Ler? Não eram as palavras que procuravam compreender, mas o poema salgado infiltrado no papel poroso que só o paladar tornava inteligível. Ah, poema salobro!

Mas o fato é que fora encontrado morto em plena manhã, a carne inerte estirada no piso sujo da tapera urbana que lhe emprestaram, a palavra afiada e manchada de sangue ainda brilhava num canto, os pulsos deflorados. Suicídio? Suicidava-se um pouco por dia, todos os dias da sua vida. Mas vivia tão feliz nestes últimos tempos!

Recolhido anonimamente, seu corpo sumiu, bem como a palavra, arma que utilizara. Sumiu o corpo do poeta e a metáfora, mas no jornal Ernesto leu a notícia: “morreu carbonizado enquanto dormia bêbado, sob a luz de uma vela derrubada pelo vento”.

Pois bem, que diga o jornal a sua verdade, fria verdade; eu prefiro o calor da poesia... E é como um poema que o bardo brada na praça: “não morreu carbonizado o bêbado; morreu o poeta, os pulsos cortados pela palavra, afiada como navalha”.

 Blumenau, 20 de março de 2003.

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