LUTO ERNESTIANO

CRÔNICA DA SEMANA

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

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LUTO ERNESTIANO

 Viegas Fernandes da Costa

 Nunca usava preto! Está certo, sei o que vão dizer: “não é o preto a cor dos poetas?” Sei lá, assim falava Neruda, que na sua adolescência literária costumava se impor com seus trajes pretos, mas não o Ernesto, que prefere cor qualquer, menos preto. E não é tanto pela cor não, mas pelo calor que provoca, pois se há coisa que detesta é calor. Mas enfim, falo isso para que vocês compreendam meu espanto quando o vi por estes dias, fim de tarde, sentado a sua costumeira mesa no Farol, vestido como um rei núbio, com direito à capa e tudo mais.

- Estou de luto! - foi logo se justificando.

- Luto?

- Esta madrugada enterrei meu último sonho. Meu último sonho, morto e sepultado, compreende?

Se compreendi, não sei. Mas de imediato lembrei-me de alguns trechos d’O Spleen de Paris, onde Baudelaire escreveu que “Sob o vasto céu acinzentado, numa vasta planície empoeirada, sem caminhos, sem grama, sem cardo nenhum, encontrei homens que caminhavam curvados. Cada um trazia nas costas uma enorme Quimera, tão pesada como um saco de farinha ou carvão, ou a mochila de um infante romano”. E constatou o poeta francês que a despeito de todo o peso e opressão que o sonho imprimia a estes homens, caminhavam resignados e sem demonstrar cansaço. Ernesto é destes que só se movem empurrados pelo sonho.

Na verdade não é esta a primeira vez que o vejo assim, taciturno, enlutado. Não, não. Lembro-me bem do dia que matara Deus. Puxa, aquilo sim foi uma fossa brava! Não havia quem lhe pusesse conforto. Nem mesmo o sorriso de Cíntia fora capaz de tornar suaves as linhas do seu rosto. Mas agora era diferente, não fora Deus que matara, mas aquele sonho que lhe empurrava as pernas e movia os lábios. Deus inventaram para ele, mas aquele sonho era obra sua, parido da sua própria vontade, e tão importante era que sonho e Ernesto passaram a ser uma mesma coisa. Portanto, o luto que carregava era também para si.

- Foi de súbito: a dúvida surgiu e o sonho ruiu. Não quis acreditar! Relutei, tentei ressuscitá-lo, mas nada! Castelo de cartas desmanchado pelo vento... Como tem ventado nestes últimos tempos!

- “A resposta, meu amigo, está soprando no vento! A resposta está soprando no vento!”, não é o que canta Bob Dylan? – foi tudo o que consegui lhe dizer.

- Talvez...

Sei que nestas horas de nada adiantam longos discursos morais. Ernesto não se deixa convencer. O melhor mesmo é escutá-lo e compartilhar consigo o vinho que lhe alenta. Se citei Bob Dylan foi apenas porque a sentença me veio, assim, sorrateiramente, exigindo ser pronunciada. E depois, seu luto é justificado. Justificado e digno! Afinal, quantos percebemos quando nos morrem os sonhos? E que não se confunda sonho com desejo, pois são coisas diferentes. Uma coisa é desejar a casa própria, o carro do ano, passar no vestibular ou até casamento – se bem que o casamento vem se tornando desusado em nosso meio; outra, completamente diferente, é arquitetar um caminho sem destino, pois para Ernesto sonhar é isto: construir caminhos por onde possa caminhar em companhia, já que “sonho que se sonha junto é realidade”, como diria mestre Raul Seixas.

Ai, ai! Ficamos ali, bebendo o morto, como fazem os do interior, até alta madrugada. Acho até que me embriaguei, pois não consigo lembrar o exato momento em que tirou a pesada capa e desabotoou os punhos da camisa. Lembro, porém, do instante em que esboçou aquele raro sorriso interior e se levantou para a noite que caía branda sobre a cidade. Noite de Lua e estrelas! E como num sussurro, senti farfalhar o vento em meus ouvidos. Teria Ernesto ouvido também? Provável, pois não demorou que se movesse, passasse a mão de veias salientes sobre a cabeça de Cíntia que, debruçada sobre a mesa, já dormia, e se fosse, sem dizer nada.

Se bem o conheço, dia destes estará de volta, sorrindo como uma criança profana – pois essa de pureza infantil, sei não! Por isso não me preocupo, se há algo que Ernesto sabe fazer, é sonhar; daí ser um poeta, ainda que sem versos! 

Blumenau, 16 de junho de 2003.

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