DE RAMSÉS II, DO ALCOVITEIRO HOPI E DO TRISTE FIM DE JEAN FRANÇOIS

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

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DE RAMSÉS II, DO ALCOVITEIRO HOPI E DO TRISTE FIM DE JEAN FRANÇOIS

 Viegas Fernandes da Costa

 Jean François olha para a esposa, zonza de sono e estirada sob os cobertores, e pergunta sobre a gravata. Deveria escolher aquela, de listras azuis sobre um fundo vermelho, ou deveria usar a de listras vermelhas sobre um fundo azul?

A dúvida, angústia, justifica-se: estamos no ano de 1974 e Jean François está prestes a começar o seu primeiro dia de trabalho. Conseguira uma boca na imigração francesa e trabalharia como conferente de passaportes. Função: abrir o passaporte, olhar para a cara do sujeito ou da sujeita, olhar a foto, olhar de novo para a cara do sujeito ou da sujeita, e liberar ou não o documento. Mas como está ansioso este Jean François que agora vemos mirar a esposa sonolenta esperando uma resposta!

- A vermelha de listras azuis.

A gravata vermelha de listras azuis combinava sim, dava um charme especial e faria com que fosse notado por tão ilustre passageiro que desembarcaria naquele dia. Ah, sim, desculpem o meu esquecimento! Ainda não contei que a ansiedade deste Jean François multiplicara-se porque havia sido alertado da possível chegada de um chefe de Estado egípcio à França naquele seu primeiro dia de trabalho. Está certo que o Egito não era lá grande coisa para este que sempre admirou as proezas napoleônicas. Afinal, como respeitar um país ocupado, anexado e roubado pelos exércitos de Napoleão? Na sua cabeça o Egito era inferior. Mas chefe de Estado é sempre chefe de Estado, e não custava derreter-se para o tal de Ramsés II que estava chegando. E depois, pelo nome, só poderia ser rei, cheio das pompas e com uma egipciazinha muito da bonita como princesa a tiracolo. Vai que ela se encanta com o funcionário da imigração de gravata vermelha com listras azuis? A esposa não se importaria e não seria nenhuma surpresa se propusesse um ménage a trois com a tal princesa egípcia. E é naufragado nestes pensamentos que se despede com um beijo na mulher, aperta o botão do elevador e some das nossas vistas.

Vamos reencontrá-lo atrás de um balcão e de uma pilha de pequenas cadernetas. Olha a cara sujeito, a foto, a cara do sujeito, confere o nome, libera; olha a cara da sujeita, as pernas, a cara da sujeita, confere o nome, estado civil, telefone do hotel, libera; olha a cara do sujeito, a foto, a cara do sujeito, e libera; olha a cara da sujeita, as pernas, o decote da blusa, a sujeita, confere o nome, estado civil, telefone do hotel, pergunta se gosta de lagosta (Jean François adora lagosta), e libera com um “até mais tarde”. E assim foi escorrendo a areia da ampulheta sem que houvesse notícia do tal Ramsés II. Já ia concluindo que perdera tempo escolhendo a gravata e penteando os bigodes (porque Jean François carrega imponentes bigodes à lá detetive Poirot) quando, enfim, chegou-lhe o tão ansiado passaporte diplomático. Pena que não havia outro, o da tal desejada princesa egípcia. Ramsés II viajara sozinho, em provável visita oficial ao país de Baudelaire. 

Antes de abrir o documento, Jean François obedeceu ao ritual que acabara de criar para ocasiões especiais: pigarreou, arrumou o nó da sua gravata vermelha de listras azuis, vestiu suas assépticas e patéticas luvas de látex, pois não haveria de manchar com suas digitais a fotografia do ilustre, e abriu o passaporte. Olha amigo leitor, amiga leitora que me suportaram até aqui: impossível descrever a surpresa e frustração do nosso personagem. A foto era de um velho (e põe velho nisso!) de rosto aquilino, pele (pele?) mais chupada que tangerina em mãos de moleque e alguns ralos e rebeldes cabelos levemente avermelhados. Estava aí o tal do Ramsés II! Data provável de nascimento: 1303 a.C.; pai: Seti I; mãe: Tuya; profissão: rei falecido. Ou seja, o passaporte era da múmia do faraó que governou o Egito por sessenta e seis anos e teve, oficialmente, noventa filhos! Ah, não acreditam? Pois podem acreditar! Isto porque os egiptólogos do Museu do Cairo enviaram a múmia para Paris a fim de ser tratada de uma infecção por fungos, e como múmia não deixa de ser um corpo humano, tiveram que emitir um passaporte em seu nome.

 Mais curioso destino teve outra múmia, a do sacerdote egípcio Hopi, nascido por volta do ano 1090 a. C. e que serviu à esposa do deus Amon, para quem celebrou diversos rituais. Hopi foi também o guardião do harém real. Como se vê, homem de confiança do faraó e pessoa de grande prestígio (e sorte) na sua época. Pois então, a tal da múmia do sacerdote aí acabou chegando ao Brasil e foi comprada pelo Imperador Pedro I em 1827.

Hopi não teve a mesma sorte do seu conterrâneo, Ramsés II, que teve direito até ao passaporte! Ao chegar ao porto do Rio de Janeiro, não se soube como classificar tão curioso “objeto” de importação, e para que pudesse ser liberado, alguém mandou escrever “carne seca” na ficha. Imagine o senhor, a senhora, o ultrage, a ignomínia, que não deve ter sido para tão poderoso sacerdote ser chamado de charque por um brasileiro qualquer! E como se não bastasse, Hopi e outras múmias que lhe fazem companhia no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro tiveram ainda que amargar, por culpa de umas reformas no telhado, uma enchente que invadiu a ala do museu onde estavam expostas. De tão molhado que ficou, uma verdadeira colônia de fungos tomou conta do seu corpo. Logo Hopi, que em seus tempos de glória carregara a chave do harém real!

Bem, é isto! Quanto ao nosso amigo, Jean François, resolveu compensar a falta da princesa egípcia indo fazer uma visita ao quarto daquela turista bonitinha a quem perguntara se gostava de lagosta. Estão lembrados dela? Pois então, ela mentiu! Não só não era solteira, como seu marido era taxidermista. Este, quando viu o rapaz, nu, sobre a sua cama, vestindo apenas uma gravata vermelha de listras azuis e oferecendo a lagosta para sua esposa, não pensou duas vezes: matou e empalhou (o Jean François, não a lagosta). 

 

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