O DESALENTO LITERARIO DE ERNESTO

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Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós".

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O DESALENTO LITERÁRIO DE ERNESTO

Viegas Fernandes da Costa

 

Sei lá, mas acho que o Ernesto está envelhecendo, para usar um clichê, a olhos vistos. Isto porque não mais encontro nele aquele entusiasmo quixotesco pelas letras. Está certo que a coisa já não é de hoje, porém só agora é possível perceber seu desalento literário manifestado na sua fala ferina, nos seus olhos de Morfeu.

Há tempos ensaiou-se em seu corpo tênue esperança. Um sopro de vida literária penetrou em suas narinas e preencheu de “ânima” aquele corpo movido por sinapses quando viu eleitos à Academia Brasileira de Letras escritores do peso de uma Ana Maria Machado, de um Moacyr Scliar, de um Ivan Junqueira, e pensadores da língua e da literatura portuguesa do naipe de um Alfredo Bosi e um Evanildo Bechara. Mas recentemente, ao ver Marco Maciel eleito para assentar a bunda magra na cadeira almofadada daquela casa literária, suas esperanças de seriedade e compromisso com a literatura dos nossos letrados “imortalizados” no fardão caiu por terra. Ernesto ingeria sem muitos engulhos até o nome de Paulo Coelho, que este ao menos possuía apelo popular, mas o Marco Maciel já foi demais!  Vomitou verbo até não poder mais e depois evocou o mestre Quintana para lembrar-se que os verdadeiros escritores são passarinhos, e muitos destes que aí estão, de farda e fardão – como ironizou Jorge Amado - , simplesmente passarão. É, passarão...

Claro, tanto ernestiano desânimo não se deve apenas aos conchavos eleitorais na casa de Machado de Assis; estende-se também ao pequeno feudo onde reside e onde proliferam notáveis escritores... notáveis em sua mediocridade, que fique bem claro!

Dia destes esbarrou com um pela Avenida Beira Rio. Claro, tivesse-o visto, teria mudado de calçada, quiçá se lançado às águas poluídas do Itajaí-Açu, mas não houve tempo e viu-se à mercê do “famoso escritor”.  Muito bem vestido, muito bem galante, amiúde profere palestras nos colégios de ensino médio da nossa cidade, cioso que é com o futuro das letras e com o corpo das ninfetas que vão ouvir suas bazófias e aquilo que ousa chamar de poesia. Pois bem, chocaram-se na rua para o desespero do nosso amigo que sofreu o convite de assistir a um curso dinâmico de arte poética ministrado por este aedo mor da província. No currículo, dando respaldo, o nome de Saramago. Ernesto endoidou, e se estivesse na Bahia teria rodado a baiana até esta ficar tonta e cair sobre as pedras do pelourinho! O cara-de-pau teve a ousadia de citar o Nobel de Literatura mesmo tendo estado com ele uma única vez, quando o autor do “Ensaio Sobre a Cegueira” viajou para estas terras catarinas em rápida passagem para uma deprimente sessão de puxa-saquismo crônico. Agradeceu o panfleto e entregou-o ao voraz apetite da primeira capivara com complexo de avestruz que encontrou pelo caminho (para os desavisados, o alerta: Blumenau já foi terra de índios Xokleng, depois de alemães e hoje é a província com o maior número de capivaras por metro quadrado). Deixa o Saramago saber disso, deixa!

De qualquer forma, é sempre bom reencontrar Ernesto, rendido neste verão ao doce sabor da cerveja escura em detrimento ao vinho, sentado à tradicional mesa do Farol. Envelhecido, sim, talvez, mas com a certeza de que os melhores escritores são passarinhos que de tão livres e sinceros, permanecem criminosamente inéditos.

 Blumenau, 15 de fevereiro de 2004.

 

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