\n'; document.write(barra); } } changePage();
|
CRÔNICA DA SEMANA DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
OITAVO! Viegas Fernandes da Costa
O Ênio é desses gaúchos que parecem nascidos na Bahia, tão leve leva a vida! Conheci a figura lá no seu antiquado, porém aconchegante, mercadinho na Coronel Feijó, aparelho digestivo da literária Porto Alegre. Vende de tudo, o homem, e como conta histórias! Se por ele vividas, não boto a mão no fogo, já vou avisando, parece até que já as vi em outras páginas, mas isto lá também não importa muito. Importa, isto sim, que foram apropriadas – ou seria expropriadas – por sua pessoa bastante fornida de banhas e que já fazem parte da sua vasta biografia. Bem, pronto o preâmbulo, vamos aos fatos. Nascido em algum ponto remoto dos pampas, migrou Ênio ainda guri para devassar os segredos da ninfotômica capital gaúcha. Há de se chamar a atenção para o fato do nosso personagem nunca ter visto construção com mais de dois andares e nem estrada onde se cruzassem mais de duas carroças – automóvel, então, contava nos dedos quantos já tinha visto. Ao chegar na cidade, deslumbrado de se borrar com tanto prédio, carro e gente, foi logo enfiado na Banca 9 do Mercado Público para trabalhar com o tio. Xucro, ficou responsável pelas entregas domiciliares, pois atrás do balcão para atender o público é que ainda não podia ser! Não conhecia as marcas e não atinava com os preços, só faria confusão na hora de receber os fregueses, e por isso se concluiu mais seguro encarregá-lo apenas das entregas naquela cidade que mais parecia o labirinto do Palácio de Cnossos. Conclusão precipitada e equivocada, como há de se concluir. Já logo na primeira entrega, foi enviado para o apartamento de um cliente no alto da Andradas, a famosa Rua da Praia. Chegar até o prédio não foi problema, já que era só seguir a via e observar a numeração. A facilidade foi tanta, que Ênio até começou a acreditar que acabaria por sobreviver em meio a todo aquele concreto e à inconcebível azáfama urbana. Com passo decidido e peito estufado de orgulho, adentrou ao edifício e indagou ao recepcionista em sua roupa de mico de circo sobre a escada que deveria levá-lo ao oitavo andar. “Vá com o elevador”, respondeu o mico de circo sem desviar os ouvidos do radinho que transmitia ao vivo, e à pilha, o tão esperado “Grenal” daquele agora distante ano de 1964 (brrrr, dá calafrios só de falar o ano!). Pois é, Ênio obedeceu. Entrou no elevador, colocou a pesada sacola no chão, e ordenou ao tal elevador que o levasse ao oitavo andar. Ficou esperando, e nada. Pediu de novo: “quero ir para o oitavo!” Nada. Continuou esperado, afinal, o moço podia estar cochilando e assim não o ouviu. Quando ia pedir pela terceira vez, e definitivamente decidido a acordar o sujeito que deveria estar a observá-lo em algum lugar protegido além daquelas paredes de madeira (coisas desse mundo moderno, onde há câmeras invisíveis e sujeitos por detrás das paredes fazendo subir e descer caixas de madeira) o troço fechou as portas e, num suave balanço que quase pôs Ênio no chão de tanto susto, começou seu trajeto andares acima. Claro que nosso personagem, tricolor até no preservativo, ficou todo impressionado e satisfeito com aquela novidade tecnológica da qual jamais ouvira falar até então, e todo proso cumprimentou com um estrondoso “bom dia!” o casal de velhinhos que entrou no quarto andar. Agora, impressionado mesmo ficou quando a espantosa máquina elevatória abriu novamente sua porta e percebeu que havia retornado ao mesmo térreo de antes com o mesmo recepcionista vestido como mico de circo. Coça cabeça daqui, coça sovaco dali, e vai entender? Pediu de novo, “oitavo!”, mas nada do elevador se mexer. Aí não teve mais jeito, ficou por ali mesmo, braços cruzados, matutando, esperando para ver no que ia dar. Coisa de cinco minutos depois, volta o casal de velhinhos, e surpreso com a ainda “Ênia” presença, perguntou o vovô: - Moço, tudo bem? Tu precisa de ajuda? - Preciso é de chegar no oitavo andar, mas o elevador não me leva! - E tu apertou no botão? – perguntou a velhinha sinalizando o número oito no painel de controle. A resposta do Ênio? - Mas bah, tche, eu não! Não mexi em nada! Se alguém estragou não fui eu!
Blumenau, 24 de fevereiro de 2004. AVISO A coluna "Crônica da Semana" é publicada em diversos sites, revistas e jornais brasileiros, portugueses e espanhóis (Galícia), bem como enviada também por e-mail para milhares de pessoas em dezoito países. Se você deseja receber esta coluna em seu e-mail, envie-nos uma mensagem solicitando o envio. Caso você possua algum site, é responsável por alguma revista, jornal ou boletim e gostaria de também publicar esta coluna, entre em contato conosco. A distribuição é gratuíta. |