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CRÔNICA DA SEMANA DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
A IGREJA DIONISÍACA DA SAGRADA CLOACA OFIDIANA Viegas Fernandes da Costa Não consigo me lembrar se já contei para vocês, mas o Ernesto é ateu. Sim, eu sei, isso não é coisa que se declara em crônica, principalmente porque possui ele muitos admiradores piedosos que devem agora estar profundamente decepcionados. Desculpem-me, mas o próprio Ernesto não faz muita questão de esconder o fato. Tanto que por estes dias encontrei-o à Praça do Estudante discutindo religião com o Faustino, que depois da sua última – e única – desventura amorosa, deu para duvidar das coisas do mundo. Discutiam como dois bêbados alegres, suas palavras ecoando nos morros desta cidade. Falavam da igreja que pretendem fundar. Como? Não entendeu? Igreja sim, apesar de descrentes! Mas antes de me perder nos detalhes deste profano projeto, há de se fazer algumas considerações a respeito do ateísmo ernestiano. Nosso amigo não é destes que se tornam ateus por modismo. Ah, isto não! Se caiu na descrença, não foi porque quis. Aliás, se pudesse escolher, seria um beato, crente até debaixo d’água, um anacoreta! Mas não teve jeito! Uma dúvida aqui, outra ali, e quando viu... pronto! Matara Deus! Outro dia confessara-me que nos tempos em que ainda não era assassino de Deus, vivia melhor. Afinal, não havia medo ou problema que não entregava para o cidadão lá de cima. Agora não, contava apenas consigo próprio, com sua desrazoada razão. E olhem, pela cara que fez, vê-se que não é nada fácil nadar em alto mar sem uma tábua que lhe sirva para o descanso. Tanto é verdade que já visitou tudo que é templo religioso e terreiro de umbanda, mas até agora nada de alguém convencê-lo. Até com o Inri Cristo já andou conversando. Gosta de afirmar que tudo não passa de mero exercício de observação antropológica, do que duvido. Para mim é busca teológica mesmo! Bom, mas isto também não interessa, até porque você, amigo leitor, amiga leitora, que agüentou chegar até aqui, deve tê-lo feito para saciar a curiosidade a respeito da tal igreja sobre a qual os dois falavam na Praça do Estudante, não é? Então tá, eu conto! Começo alertando para o fato de que de original a igreja tem muito pouco, a começar pelo nome, um plágio barato. Chama-se “Igreja Dionisíaca da Sagrada Cloaca Ofidiana”, corruptela do nome de uma outra igreja que encontraram na Internet e que foi criada por um certo “Apóstolo Édio” - que pela hora anda desaparecido. “Emprestaram” o nome, e o próximo passo é escrever os textos sagrados, tarefa a qual se dedicavam na Praça do Estudante, quando os encontrei. A atividade era curiosa. Retiravam papeizinhos de uma dessas vulgares sacolas de supermercado e transcreviam o que estava escrito para um enorme e vistoso volume de páginas douradas e capa de couro. Disseram-me que seguiam o exemplo de Tristan Tzara, aquele poeta romeno que liderou o dadaísmo e que dizia que para se fazer um poema tudo que bastava era recortar aleatoriamente várias palavras de um jornal, misturá-las num saco e depois transcrevê-las para o papel na ordem em que fossem sendo retiradas. Pois então, estavam escrevendo a “Bíblia Dadaísta Cloaco Ofidiana”! Para tanto, recortaram cuidadosamente versículos do Livro dos Mórmons, do Alcorão, da Bíblia Cristã, do Kama Sutra além de muitos outros trechos de livros das mais diversas crenças religiosas – consta-me que até do “Livro dos Mortos” egípcio - e depositaram-nos no interior daquela sagrada sacola de supermercado que eu até posso nomear, desde que o jabá seja bom! E tudo isso seguindo o rigorosíssimo ritual cloaco-ofidiano. Afinal, se criavam uma igreja não podiam descuidar do ritual, não é mesmo? Certamente passarão o resto do ano transcrevendo os papeizinhos até que as tantas páginas douradas fiquem preenchidas, passatempo para as férias. Quanto aos rituais iniciatórios e outros aspectos ritualísticos e doutrinários, nada há de concreto. Esperam a prometida anunciação do Oráculo de Baco, a se pronunciar na próxima taça de Cabernet que beberão no Farol. Certo mesmo só a austeridade moral promovida pelo pagamento do dízimo, que libertará o fiel de todo e qualquer sentimento de culpa que lhe possa acometer, e a substituição do copo de água sobre o monitor de televisão pela taça de vinho sobre o tampo da mesa. Ah sim... e a beatificação de Macunaíma, primeiro santo cloaco-ofidiano! Por hora, é isto que há. Se a igreja vai dar certo, não sabemos. Mas o projeto é ambicioso e não será por falta de fiéis que sucumbirá. O maior problema será resolver a dissidência que já se forma entre os dois patriarcas, envolvidos em disputa política acirrada para definir quem será o primeiro papa da nova fé. Faustino até já ameaça com a fundação da Igreja Dionisíca da Sagrada Cloaca Ofidiana Ortodoxa, sob sua égide, o Papa Fausto I. Vamos aguardar... Blumenau, 26 de março de 2004 AVISO A coluna "Crônica da Semana" é publicada em diversos sites, revistas e jornais brasileiros, portugueses e espanhóis (Galícia), bem como enviada também por e-mail para milhares de pessoas em dezoito países. Se você deseja receber esta coluna em seu e-mail, envie-nos uma mensagem solicitando o envio. Caso você possua algum site, é responsável por alguma revista, jornal ou boletim e gostaria de também publicar esta coluna, entre em contato conosco. A distribuição é gratuíta. |