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A EDUCAÇÃO ROMANA
Indro Montanelli
Na Roma daquela época, todos "viviam perigosamente". E os perigos começavam no dia em que se vinha ao mundo. Pois se alguém nascia mulher ou com alguma deficiência física, o pai tinha o direito de jogá-lo porta afora e ali deixá-lo morrer. E com freqüência fazia-o de verdade.
O filho homem e sadio, no entanto, em geral era bem recebido, não só porque mais tarde, com seu trabalho, seria de ajuda aos pais, mas também porque estes acreditavam que, se não deixassem alguém para cuidar de suas tumbas e celebrar os devidos sacrifícios, a alma deles não entraria no paraíso.
Se tudo corria bem, isto é, se tivesse acertado no sexo e na integridade física, o recém-vindo, oito dias depois do nascimento, era oficialmente recebido pela gens, numa cerimônia solene. A gens era um grupo de famílias que remontava a um antepassado comum, o qual dera a elas o próprio nome. Com efeito, a criança habitualmente recebia três nomes: o individual ou "prenome" (como Mário, Antônio etc.), o da gens ou "nome" propriamente dito, e o da sua família, ou "sobrenome". Isso no que se refere aos homens. As mulheres, no entanto, traziam apenas o "nome", ou seja, o da gens. E, de fato, chamavam-se Túlia, Júlia, Cornélia etc., enquanto seus irmãos eram, por exemplo, Marco Túlio Emílio, Públio Júlio Antônio e Caio Cornélio Graco.
Este estranho costume gerou um monte de confusões porque, como os antepassados fundadores haviam sido, como já dissemos, centenas em ‘tudo, os "nomes" das gentes eram outras tantas centenas e portanto repetiam-se continuamente, tornando obrigatório o acréscimo de um quarto ou quinto sobrenome. Por exemplo, o Públio Cornélio Cipião que destruiu Cartago acrescentou também, em seu cartão de visitas, um "Emiliano Africano Menor" para se diferenciar do Públio Cornélio Cipião que vencera Aníbal e acrescentara ao seu um ‘‘Africano Maior’’.
Como vocês podem perceber, eram nomes compridos, pesados e imponentes, que por si só depositavam um determinado número de obrigações sobre as costas do recém-nascido. Um Marco Túlio Cornélio não podia permitir-se luxos nem se abandonar a caprichos, direitos que hoje se reconhecem em um "Nenê" ou em um "Bebê". De fato, não cresciam com muitos mimos. Desde a mais tenra idade, ensinava-se a eles que a família de que eram membros constituía uma verdadeira unidade militar, na qual todos os poderes se concentravam no pai, isto é, o paterfamilias. Só ele podia comprar e vender, pois só ele era o proprietário de tudo, inclusive o dote da esposa. Se ela o traía ou roubava vinho no tonel, podia matá-la sem processo. Direitos idênticos tinha sobre os filhos, que podia até vender como escravos. Tudo o que estes compravam tornava-se automaticamente propriedade deles. As mulheres só escapavam dessa autoridade paterna quando ele as entregava como esposas a alguém cum manu, ou seja, renunciando explicitamente a todos os direitos sobre elas. Mas, nesse caso, os direitos passavam para o marido. De maneira que a mulher acabava sempre por depender de um homem: ou do pai, ou do marido, ou do filho maior quando ficava viúva, ou de um tutor.
Essa rígida disciplina, que lentamente se suavizou com o correr dos séculos, tinha seu limite na pietás, isto é, no afeto entre os cônjuges e entre estes e os filhos. Mas ele não conseguia nunca, ou quase nunca, abalar a granítica unidade da família romana, que incluía também os netos, os bisnetos e os escravos, estes últimos considerados simples objetos. A mãe chamava-se domina, isto é, senhora, e não era confinada num gineceu, como acontecia com as gregas. Fazia as refeições com o marido, mas sentada no triclínio (uma espécie de divã rústico) e não deitada, como ele. Em geral, não trabalhava muito, manualmente, pois não havia problemas de pessoal para o serviço, com tantos escravos capturados no campo de batalha, e cada família possuía mais de um. A domina dirigia-os e os vigiava. Depois, para se distrair, tecia lã para as roupas do marido e dos filhos. Livros, baralhos, teatro, circo: nada. As visitas eram raras e apenas de praxe. Um cerimonial cuidadoso tornava-as complicadas e difíceis. A domus, isto é, a casa, era, mais que um quartel, um verdadeiro fortim. E ali, na mais absoluta obediência, formavam-se os meninos.
A eles era ensinado que a chama da lareira jamais podia extinguir-se, pois ela representava Vesta, a deusa da vida. Era preciso nutri-la, acrescentando sempre mais lenha e jogando migalhas de pão durante as refeições. Nas paredes, que eram de barro ou de tijolos, penduravam-se pequenos ícones, em cada um dos quais o menino via um Lar ou um Penate, pequenos espíritos domésticos que protegiam a prosperidade da casa e dos campos. Na porta estava Jano a vigiar quem entrava e quem saía, com suas duas faces voltadas uma para dentro e outra para fora. E em toda a volta, montando guarda, havia os Manes, as almas dos antepassados, que ficavam nas paragens mesmo depois de mortos. Assim, ninguém podia fazer um gesto sem dar de frente com algum guardião sobrenatural, o qual também fazia parte da família: uma família composta não só de vivos, mas também daqueles que os haviam precedido e daqueles que os seguiriam. Todos juntos formavam um microcosmo não só econômico e moral, mas também religioso, do qual o pater era o infalível papa. Ele cumpria os sacrifícios no altar de casa. E era em nome dos deuses que comunicava as ordens e distribuía os castigos.
A religiosidade na qual crescia o menino romano, mais do que aperfeiçoá-lo, no sentido que hoje damos a essa palavra, visava discipliná-lo. Com efeito, ela não o impelia na direção dos nobres ideais da bondade e da generosidade, mas na aceitação das regras litúrgicas, que tornavam um rito toda a sua vida. Não se pedia a ele, por exemplo, que não fosse interesseiro; pedia-se, aliás exigia-se, que respeitasse certas regras e participasse das cerimônias. Todas as suas orações eram voltadas à consecução de fins práticos e imediatos. Dirigia-se a Abeona para que lhe ensinasse a dar os primeiros passos, a Fabulina para aprender a pronunciar as primeiras palavras, a Pomona para que lhe fizesse crescer bem as peras no jardim, a Saturno para que o ajudasse a semear, a Ceres para que lhe permitisse colher, a Estérculo para que as vacas no curral dessem bastante esterco.
Todos esses deuses e espíritos eram personagens sem preocupações morais, mas minuciosíssimos no que se referia à forma. Evidentemente, não tinham ilusões quanto à alma humana. E considerando-a não suscetível a um verdadeiro aperfeiçoamento, abandonavam-na a si mesma. O que lhes interessava não eram as intenções, mas as ações de seus fiéis, as quais queriam manter presas nos limites das grandes instituições — a família e o Estado —, de que constituíam o fundamento. Por isso exigiam a obediência ao pai, a fidelidade ao marido, a fecundidade, a aceitação da lei, o respeito à autoridade, a coragem na guerra até o sacrifício, a firmeza frente à morte. E isso tudo coberto por uma solenidade sacerdotal.
A essa cuidadosa e detalhada formação do caráter seguia-se, em torno dos seis ou sete anos, a da mente, ou seja, a instrução propriamente dita. Mas esta não era administrada pelo Estado, como acontece hoje com as escolas públicas. Era confiada à família, e algumas vezes o pai delegava-a a algum escravo ou liberto, mesmo nas casas abastadas. Este costume veio muito mais tarde, quando Roma se tornou maior e mais forte, porém não mais estóica. Até todas as guerras púnicas, era o pai quem servia de professor ao filho, ou seja, concedia a ele o que hoje se chama "cultura" e que então se chamava "disciplina" para ressaltar melhor o caráter de obediência absoluta.
As matérias eram poucas e simples: leitura, escrita, gramática, aritmética e história. Os romanos conheciam uma espécie de tinta retirada da seiva de certos grãos. Nela molhavam uma pequena haste de metal, com a qual compunham as palavras sobre tabuinhas de madeira lisa (só mais tarde conseguiram fabricar papel de linho e pergaminho). Sua língua era de uma sintaxe severa, mas com poucos vocábulos e desprovida de sutilezas, que se prestava mais à compilação de leis e de códigos do que a romances e poesias. Os romanos de outrora não sentiam necessidade dessas coisas, e quem desejasse lê-las tinha de aprender grego, língua muito mais rica, sutil e flexível. Com efeito, seu primeiro texto de história escrita é gravado em grego: o de Quinto Fábio Pictor. Mas é de 202 a.C., ou seja, de uma época muito mais avançada.
Até aquele momento a história só era transmitida oralmente de pai para filho, mediante narrações fantasiosas, que atingissem a imaginação das crianças: era a de Enéias, de Amúlio e Numitor, dos Horácios e dos Curiácios, de Lucrécia e de Colatino. Essas lendas históricas arbitrárias eram reforçadas pela poesia, toda ela numa entonação sacra e solene. Era condensada em volumes que se chamavam Fastos consulares, Livros dos magistrados, Anais máximos etc. e celebravam os grandes eventos nacionais: eleições, vitórias, festas, milagres.
O primeiro a escapar a esses temas de praxe foi um escravo grego, Lívío Andronico, que fora aprisionado durante o saque de Tarento e levado para Roma, onde começou a contar a Odisséia aos amigos de seu amo. Eles se divertiam. E como eram pessoas influentes, encarregaram-no de compor um espetáculo para os grandes ludos, ou jogos do ano 240. Lívio, para traduzir aqueles versos gregos, inventou similares em latim, de um ritmo duro e irregular. E com eles compôs uma tragédia, da qual recitou e cantou todas as partes, até ficar com um fio de voz. Os romanos, que jamais tinham visto ou ouvido nada igual, divertiram-se a tal ponto que o governo reconheceu os poetas como uma categoria da cidadania e permitiu-lhes se unirem numa "corporação", com sede no templo de Minerva, no Aventino.
Mas isso também — repito — aconteceu muito mais tarde. No momento, em termos de literatura os garotos não tinham nada para ler. Tendo aprendido a soletrar e a decorar as tais lendas, eles passavam à matemática e à geometria. A primeira consistia em simples operações de contagem feitas nos dedos, das quais os números escritos eram apenas imitações. O I é a representação gráfica de um dedo, levantado, V é a de uma mão aberta, X duas mãos abertas e cruzadas. Os romanos faziam contas utilizando estes símbolos, prefixos (IV) e sufixos (VI, XI!). Depois, a partir dessa aritmética manual, desenvolveu-se um sistema decimal, divisores e múltiplos de dez, isto é, dos dez dedos. Quanto à geometria, ela permaneceu arcaica até que vieram os gregos para ensiná-la: limitava-se ao mínimo necessário para as rudimentares construções da época.
Nada de ginástica. As "palestras" e os "ginásios" são de um período muito posterior e também de importação grega. Os pais romanos preferiam fortalecer os músculos de seus filhos pondo-os para trabalhar a terra com a pá e o arado, e depois entregando-os ao exército que, quando os deixava vivos, devolvia-os muitos anos depois em ponto de bala. Por isso, não se ensinava sequer medicina. Os romanos consideravam que eram os deuses, e não os vírus, que provocavam as doenças. E então, das duas uma: ou os deuses, com aquele sinal, queriam dizer ao doente: "cai fora", e nesse caso não havia nada a fazer; ou queriam apenas infligir-lhe um castigo momentâneo, e nesse caso não havia o que esperar. Com efeito, para cada moléstia existia uma reza a esta ou àquela divindade. A Nossa Senhora da febre, a quem ainda hoje o povinho de Roma se dirige, é a versão atualizada das deusas Febre e Mefítis, a quem se dirigia então.
Quanto às horas de recreio, nem mesmo elas eram deixadas à vontade dos rapazes ou podiam ser desperdiçadas. Depois de muitas horas de enxada e algumas de gramática, os papais senadores pegavam os filhos pela mão e os levavam para a cúria, em frente ao Foro, onde as assembléias tinham suas sessões ou senatus-consultos. E ali, naqueles bancos, em silêncio, os meninos romanos, desde a idade de sete ou oito anos, ouviam os debates sobre os grandes problemas do Estado, a administração, as alianças, as guerras, e amoldavam-se naquele estilo grave e solene, que constituía sua precípua característica (e os tornava tão chatos).
Mas o toque definitivo na formação deles era dado pelo exército. Quanto mais um cidadão era rico, mais impostos tinha de pagar e mais anos devia prestar de serviço militar. Para quem desejava iniciar uma carreira pública, o mínimo era dez anos. Portanto, praticamente só os ricos podiam abraçá-la, pois somente eles podiam passar tanto tempo longe da terra ou da oficina. Mas também os que se contentavam em exercer seus direitos políticos, isto é, os do voto, deviam ser soldados. De fato, era como tal, ou seja, como membros da centúria, que participavam da Assembléia Centurial, o corpo máximo legislativo do Estado, dividida, como já dissemos, em suas cinco classes.
A primeira tinha 98 centúrias, das quais 18 eram de cavalaria e o resto de infantaria pesada, onde cada um se alistava, armado às próprias custas, com duas lanças, um punhal, um sabre, um elmo de bronze, a couraça e o escudo, que faltava à segunda classe, no restante igual à primeira. A terceira e a quarta ficavam privadas de quaisquer instrumentos de defesa (elmo, couraça e escudo). Os da quinta eram armados apenas com bastões e pedras. A unidade fundamental desse exército era a legião, constituída de 4.200 soldados de infantaria, trezentos de cavalaria e diversos grupos auxiliares. O cônsul comandava duas, ou seja, cerca de dez mil homens. Cada legião tinha o seu estandarte, e era uma questão de honra para os soldados impedir que ele caísse nas mãos do inimigo. De fato, os oficiais, quando a situação ficava preta, empunhavam-no e se lançavam à frente. A tropa, para defendê-lo, os seguia. E muitas batalhas em que as coisas iam mal foram remediadas assim, no último momento. Nos primeiríssimos tempos, a legião dividia-se em falanges, seis sólidas linhas de quinhentos homens cada uma. Depois, para torná-la mais manobrável, em manípulos de duas centúrias. Mas o que constituía a força desse exército não era a questão orgânica; era a disciplina. O covarde era açoitado até a morte. E o general podia decapitar qualquer um, oficial ou soldado, pela menor desobediência. Dos desertores e ladrões cortava-se a mão direita. E o rancho consistia em pão e vegetais. Estavam tão habituados a essa dieta que os veteranos de César, em um ano de escassez de trigo, se queixaram de serem obrigados a comer carne.
Texto extraído de Montanelli, Indro. História de Roma. Trad. por Sandra Lazzarini. Rio de Janeiro: Record, s.d., p. 72-78.