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Solenidades dos selvagens por ocasião da matança e devoramento dos seus inimigos. Como executam estes e como os tratam.
Hans Staden*
Quando trazem para casa um inimigo, batem-lhe as mulheres e as crianças primeiro. A seguir colam-lhe ao corpo penas cinzentas, raspam-lhe as sobrancelhas, dançam-lhe em torno e amarram-no bem, a-fim-de que não lhes possa escapar. Dão-lhe então uma mulher, que dele cuida, servindo-o também. Se tem dele um filho, criam-no até grande, matam-no e o comem quando lhes vêm à cabeça.
Dão de comer bem ao prisioneiro. Conservam-no por algum tempo e então se preparam. Para tanto fabricam muitas vasilhas, nas quais põem suas bebidas e queimam também vasilhame especial para os ingredientes com que o pintam e enfeitam Além disso fazem borlas de penas, que amarram ao tacape com que o matam. Fabricam também uma longa corda, chamada mussurana. Com esta o amarram, antes de executá-lo.
Assim que tudo está preparado, determinam o tempo em que deve morrer o prisioneiro e convidam os selvagens de outras aldeias para que venham assistir. Enchem então de bebidas toas as vasilhas. Um ou dois dias antes das mulheres fabricarem as bebidas, conduzem o prisioneiro uma ou duas vezes ao pátio dentre as cabanas e dançam-lhe em volta.
Logo que estão reunidos todos os que vieram de fora, dá-lhes as boas vindas o principal da choça e diz: "Vinde agora e ajudai a comer o vosso inimigo". No dia, véspera de começarem a beber, amarram a mussurana em torno ao pescoço do prisioneiro e pintam o ibiraperna com que o pretendem matar. Tem mais de uma braça de longo. Os selvagens a untam com uma substância grudenta. Tomam então cascas de ovo dum pássaro, o macaguá, que são cinzentas, reduzem-nas a pó, e espalham isto sobre o tacape. Depois se assenta uma mulher e garatuja nesta poeira de cascas de ovo, que está grudada. Enquanto ela desenha, rodeiam-na, cantando, muitas mulheres.
Estando o ibirapema como o deve, ornado com borlas de penas e outros enfeites, será pendurado acima do chão, numa vara, numa choça vazia. Os selvagens cantam então, através da noite toda, em volta desta choça. Do mesmo modo pintam o rosto do prisioneiro, e enquanto uma mulher o pinta, cantam as outras. Quando principiam a beber, levam consigo o prisioneiro, que bebe com eles, e com o qual se divertem. Acabada a bebida, descansam no outro dia e constróem para o prisioneiro uma pequena cabana no local em que deve morrer. Aí passa ele a noite, sendo bem vigiado.
Pela manhã, bem antes do alvorecer, vem eles, dançam e cantam em redor do tacape com que o querem executar, até que o dia rompa. Tiram então o prisioneiro para fora da pequena choça e derrubam-na, fazendo um espaço limpo. Em seguida desatam-lhe a mussurana do pescoço, passam-lha em volta do corpo, retesando-a de ambos os lados. Fica então no meio, bem amarrado. Muita gente segura a corda nas duas extremidades. Assim o deixam ficar algum tempo e põem-lhe perto pequenas pedras para que possa lançá-las nas mulheres, que lhe correm em redor, mostrando-lhe com ameaças como o pretendem comer. As mulheres estão pintadas e têm o encargo, de quando for ele cortado, de correr em volta das cabanas com os primeiros quatro pedaços.. Nisso encontram prazer os demais.
Fazem então uma fogueira, a dois passos mais ou menos do escravo, de sorte que este necessariamente a vê, e uma mulher se aproxima correndo com a maça. o ibirapema, ergue ao alto as burlas de pena, dá gritos de alegria e passa correndo em frente do prisioneiro a-fim-de que ele o veja. Depois um homem toma o tacape, coloca-se com ele em frente do prisioneiro, empunhando-o, para que o aviste. Entrementes, afasta-se aquele que o vai matar, com outros treze ou quatorze, e pintam os corpos de cor plúmbea, com cinza.
Quando retorna ao prisioneiro, com os seus companheiros, para o pátio, entrega-lhe o tacape aquele que com ele se acha em pé, em frente ao capturado; vem então o principal da cabana. toma a arma e mete-lha entre as pernas. Consideram isto uma honra. A seguir retoma o tacape aquele que vai matar o prisioneiro e diz: "Sim, aqui estou eu, quero matar-te, pois tua gente também matou e comeu muitos dos meus amigos". Responde-lhe o prisioneiro: "Quando estiver morto, terei ainda muitos amigos que saberão vingar-me." Depois golpeia o prisioneiro na nuca, de modo que lhe saltam os miolos, e imediatamente levam as mulheres o morto, arrastam-no para o fogo, raspam-lhe toda a pele, fazendo-o inteiramente branco, e tapando-lhe o ânus com um pau. a-fim-de sue nada dele se escape.
Depois de esfolado, toma-o um homem e corta-lhe as pernas, acima dos joelhos, e os braços junto ao corpo. Vêm então as quatro mulheres, apanham os quatro pedaços, correm com eles em torno das cabanas, fazendo grande alarido, em sinal de alegria. Separam após as costas, com as nádegas, da parte dianteira. Repartem isto entre si. As vísceras são dadas às mulheres. Fervem-nas e com o caldo fazem urna papa rala, que se chama mingau, que elas e as crianças sorvem. Comem essas vísceras, assim como a carne da cabeça. O miolo do crânio, a língua e tudo o que podem aproveitar, comem as crianças. Quando o todo foi partilhado, voltam para casa, levando cada um o seu quinhão.
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Fonte: STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. Trad. por. Guiomar de C. Franco. São Paulo: USP; Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. p. 179-184.