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A RUA XV DA MINHA INFÂNCIA

Mariana Klueger*

Tudo muda nesta vida, ficamos mais velhos, menos resistentes, até a MINHA rua XV de Novembro mudou.

A artéria continua com as mesmas curvas suaves, lapidadas talvez pelas águas de tantas enchentes, quem sabe? Mas o espírito permanece o mesmo: principal rua da cidade! Bonita de se ver nos dias atuais, mas sempre deixando uma saudade dos tempos que lá se vão. Acho que ela se parece muito com uma mulher...

Vamos relembrar um pouquinho?

A XV da minha infância começava lá onde é a Prefeitura hoje, começava pelo fim. Lá existia a estação da finada Estrada de Ferro, lugar de muito movimento. Os colonos desembarcavam ali buscando o comércio, os médicos, os parentes e os amigos. Era um colorido só, e eu ficava apreciando aquele movimento do Pavilhão da Emília, uma pequena construção que lembrava mesmo um pavilhão, mas que tinha um bife com macarrão e palmito que até hoje lembro o gosto. E claro, o atendimento dos donos, Emília e Henrique Janning que sempre tinham uma piada, uma brincadeira para alegrar os fregueses. O pavilhão ficava no centro de uma praça cheia de árvores, limpinha, um verdadeiro tesouro para uma menina de 5, 6 anos, que adorava fantasiar.

Aquele ponto servia também de terminal para os ônibus do Garcia, que faziam sua parada bem em frente ao Grupo Escolar Luiz Delfino, construção antiga, baixa, grande e que enchia-se de barulho na hora do recreio e na saída das crianças.

Em frente à escola ficava a Casa 25, que, acho, foi depois o primeiro supermercado de Blumenau. Gente adiantada, aquela!

Na esquina da Amadeu da Luz ficava o Carlos Hoepcke, construção cinzenta e verde, que a mim parecia uma coisa fantasmagórica. Pelas cores e pelo tamanho.

Do lado oposto estava a Willy Sievert, onde compravam-se as mais bonitas fitas de veludo para as minhas tranças, e de onde saíram tantas bonecas dos meus Natais: Adelaide, minha favorita, Lilica e outras.

Em seguida o consultório dentário do Dr. Kaestner. Ui! Só de lembrar o pavor que eu sentia me dá arrepios! Odiava ficar naquele consultório esperando a minha vez, mas foi lá que aprendi a gostar de livros de história infantil, e Cinderela foi a primeira.

Mais abaixo, a Friambreria Globo, do sr. Wachholz, e do lado oposto o Walter Schmidt, seguido pelo majestoso Cine Blumenau, que tinha uma pipoca deliciosa, aquelas de máquina, que não se vê mais hoje em dia. Ao lado da pipoqueira ficava o Cine Bar, ponto de encontro dos namorados, casais e amigos que iam ao cinema.

Eu ia ao cinema todas as noites com meu pai, que possuía uma entrada permanente, e me esbaldava com os seriados (todos em preto e branco). Era o Tom Mix, o Zorro, e outros que sempre acabam em um momento crítico, e que deixavam meu coração batendo mais forte e com uma agonia para ver na noite seguinte se o mocinho conseguia salvar a mocinha das mãos dos bandidos. Adorava ver os cavalos e sofria com a mocinha, coitadinha!

Depois da sessão de cinema ia direto para a Confeitaria Benthien, onde era sagrado comer uma fatia da mais deliciosa torta de morangos, com nata de verdade, ou então me regalar com um sorvete com calda de chocolate. Maravilha!

Mas ia me esquecendo do salão de barbeiro e cabeleireira do Fischer, onde o cheiro de permanente pairava no ar, e onde muitas cabeças blumenauenses foram devidamente sapecadas pelo calor daquele aparelho quente que se colocava sobre rolos cheios daquele líquido mal cheiroso. Mas ... a beleza obrigava, né?

Do outro lado ficava um posto de gasolina, a Coletoria, a Farmácia Medeiros, do seu Luizinho, o Foto Baumgarten e a Quitandinha do Povo, que era do meu pai. Ali vendiam-se verduras e legumes, frutas, Melhoral, secos e molhados e uns chocolates admiráveis: Papais Noéis e Coelhinhos enormes. Como posso esquecer?

Atravessando a rua estava o Prédio Garcia, e o Hotel Cruzeiro, propriedade de Érica e Valério Floriani, onde à tarde sentava-se na calçada em cadeiras de vime para apreciar o movimento que era constituído de algumas bicicletas, carros-de-mola, e lá vez por outra, um carro.

O hotel ficava em frente a casa dos Hess, onde muitas vezes brinquei no jardim cheio de rosas num corre-corre com as crianças da família.

Ao lado, um pequeno prédio de cor acinzentada abrigava a família de dona Aiga Barreto, moça linda e cheirosa e que me fascinava na altura dos meus tenros anos. No mesmo local ficava a clínica do Dr. Hernani Senra, local onde nasceu minha irmã, Urda, e na frente tinha um prediozinho amarelo onde ficavam as instalações do jornal A Nação. Era uma tipografia minúscula e que me deixava de olhos arregalados ao ver todos aqueles tipos espalhados por ali.

Depois a gente ia descendo e só via casas de família e a que mais me chamava a atenção era a casa do Udo Deecke, que ficava num terreno mais alto e era cercada de um muro enorme de pedras. Ficava imaginando como se sentiriam as pessoas naquela casa com uma varanda imensa, que ocupava todo o comprimento da casa. Para mim era um espetáculo apreciar e tentar decifrar o que existia por trás daquelas folhagens que se viam cá da rua. Fiquei na curiosidade...

Estamos chegando ao Teatro Carlos Gomes, onde tive a oportunidade de assistir uma apresentação maravilhosa de bailado japonês por ocasião do Centenário de Blumenau. Esse eu nunca vou esquecer, pelo colorido e pelas carinhas de olhos puxados, que eu via pela primeira vez.

Em frente ao teatro tinha um hotel, o ............ , o Foto Hugo, e a rua seguia tranqüila até onde é hoje a Praça Professor Mosimann. Ali ficava o Hotel São José, que além de abrigar pessoas, servia de "rodoviária". Dali saí muitas vezes para Tijucas, naqueles ônibus antigos e pequenos, mas até hoje não esqueci do perfume que minha mãe usava: Royal Briar. Ela sempre viajava muito chique. Vestido de seda, sapatos de camurça, que eu experimentava quando ela não via, e no inverno um casaco castanho que ajudava a embalar meu sono durante a longa jornada até a casa de meus avós.

Em frente ao hotel ficava a Casa Flesch, e o açougue do seu Poerner. Eu achava o máximo aquela gente poder ver o movimento diário de ônibus e passageiros saindo e chegando.

Mais casas adiante e no morro a igreja de São Paulo Apóstolo, onde fui crismada. Era uma construção escura, como todas as igrejas antigas, com cheiro de vela queimando e uns querubins lindos enfeitando o altar-mor. Nada tinha a ver com a nova igreja. Acho que ela era até meio encarunchada.

Rua abaixo, o posto telefônico, a Casa Grossembacher, a Livraria Blumenauense e a Ótica Husadel. Acho que essas sempre existiram, bem como a Loja Hering, onde entrava-se só para sentir o barulho que fazia o assoalho e para comprar "roupas de baixo de trico". Explico: trico ( e não tricô) era o nome dado à malha nossa de hoje em dia.

Tinha também a Casa Riela e a Casa Borba, a fábrica de sombrinhas do Kurt Kreuz, mas o melhor era lá embaixo, no começo da XV. A Casa Kueckbusch, o Hotel Holetz, com uma escadaria linda, e onde experimentei pela primeira vez batatas fritas, levada pela mão de meu pai. Entrei com respeito e fiquei maravilhada com o movimento e o luxo.

Depois era só atravessar a ponte e dar de cara com a prefeitura e a Praça Hercílio Luz, tadinha ,tão abandonada hoje em dia.

Ali na praça eu soltava minhas tranças e minhas fantasias e sonhava que era artista de cinema, talvez influenciada por Shirley Temple. Balançava bem alto e sonhava. Sonhava vendo a curva do rio, cheio de mato, mas aonde eu ia pescar com meu pai. Ele pescava e eu brincava de boneca. Era e é a vista mais bonita de Blumenau, um encanto de árvores frondosas.

Ao lado ficava o Clube América e lá na outra esquina a Casa Carlos Koffke. Secos e molhados e muitos cheiros que trago comigo. O café moído na hora, as farinhas, as lingüiças, os queijos. Era uma viagem entrar naquela casa.

E aí terminava o meu reino encantado.

Continuo achando que a rua XV parece uma mulher, pois afinal ela guarda tantos segredos, coisa que só uma mulher recatada pode fazer em suas curvas sinuosas e lavadas de vez em quando pelas águas do rio.

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* Mariana Klueger, escritora, autora do livro "... E Assim Se Passaram Dois Anos". Esta crônica foi escrita em 11 de fevereiro de 2002.

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