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ESPANTALHOS NO DESERTO
Viegas Fernandes da Costa
Espantalhos no deserto não afugentam pássaros
nada há para ciscar no calor escaldante
Espantalhos consumidos pelo tempo persistem
e ao sol assemelham-se a dois Cristos crucificados
Espantalhos, solitários, contam as horas projetadas nas sombras
dos dias carregados no árido vento
Espantalhos sem olhos relembram compungidos
do lavrador e sua enxada os gemidos
não há mais gemidos
ou enxadas para revolver a terra,
não há mais motivos
para que se estendam os braços espantalhos,
e eles desistem,
suas cabeças caem, suas vestes voam
restam apenas duas cruzes e a lembrança
de um velho doente e sua filha prostituída
sentados sob a sombra de um grande viaduto
desenganados na vida e saudosos
dos espantalhos que construíram para guardar um futuro
que nunca chegou.