riscos nos muros

RISCOS NOS MUROS

Viegas Fernandes da Costa

risco os muros não riscados, cobertos de musgo

os muros das esquinas, escuros, distantes dos postes

testemunhas do sexo e do medo

 

risco os muros cobertos de sêmen, fiapos de roupas

prostíbulos improvisados, o sangue das nádegas rasgadas

sombrias paredes que se erguem na cidade

 

risco a esmo riscos que não dizem nada

traços alheios ao que se passa no concreto silencioso

apenas marcas de um caminhar desorientado

 

risco velhos muros cobertos de limo, lisos, asquerosos

paredões de fuzilamento, guardiões da minha sombra

calçada para os meus dedos, e a tinta se gasta

 

risco os muros com o sangue que recolho da calçada

na concha da mão o líquido viscoso, tinta para os riscos

que risco sem dizer nada

 

risco os muros que rasgam a noite, rasgados por marcas indecifráveis

rascunhos para os poetas sem livros, quadros para pintores sem telas

privadas para homens sem abrigo

 

risco, apenas, mais nada

riscos de tinta, riscos de sangue, riscos de tédio

riscos dos riscos que corro ao riscar na noite

riscos dos riscos que conspurcam os muros

risco, apenas, mais nada

 

 

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