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De qual história falamos?

Viegas Fernandes da Costa

 

Um preconceito há muito veiculado pelos historiadores, e que hoje felizmente cede às novas propostas historiográficas, afirma que a história se faz por meio dos documentos escritos, e que os povos sem escrita estariam localizados em uma fase pré-histórica. Tal visão, que concebe a história dos povos como uma evolução linear em busca da sociedade perfeita, atribui a estes povos sem escrita uma posição inferior na escala evolucionista, reduzindo sua vida material e cultural à subsistência dos seus membros.

Em contraposição a esta visão tradicional, há hoje uma historiografia que reconhece nas sociedades pré-literárias a mesma importância e complexidade cultural das sociedades contemporâneas, e que atribui ao conceito de "documento" um sentido muito mais amplo que aquele dado pela história tradicional. Neste sentido, vestígios arqueológicos, inscrições rupestres e até mesmo os mitos transmitidos pela oralidade dos anciãos transformam-se em documentos nas mãos dos historiadores que reconhecem nestes documentos o mesmo estatuto de verdade que reconheceriam, por exemplo, em uma carta escrita.

Sendo assim, torna-se possível o questionamento acerca dos quinhentos anos de "história brasileira". Que história é esta? É certo que o ano 2000 marca os cinco séculos de ocupação portuguesa na América do Sul, mas é esta a história brasileira?

O Brasil é uma construção histórica, e a nação brasileira uma invenção que constantemente precisa ser revitalizada por meio do artificialismo de heróis e tradições que nos dão um sentido de homogeneidade duvidoso. É apenas a partir do século XIX que literatos e "cientistas" vão se preocupar em encontrar o "tipo brasileiro", já que o Brasil recém independente carecia do "modelo de homem brasileiro": seria este o índio, o negro, o europeu ou o difamado miscigenado, o "Jeca Tatu" da obra de Monteiro Lobato? Até hoje se busca este "modelo", tão caro a nossa identidade.

Então, 500 anos de quê? O momento fundante marcado pelo 22 de abril é apenas um símbolo, já que a verdadeira ocupação da "nova terra" só ocorre 30 anos depois. É a partir de 1530, com a expedição de Martim Afonso de Souza, que Portugal inicia seus planos para um novo empreendimento colonial, que irá se restringir ao litoral brasileiro.

E os povos indígenas, onde estão? Expoliados de si mesmos, são tratados pela historiografia tradicional como coadjuvantes da grande peça que se arma. Mortos e escravizados, não são reconhecidos em sua diversidade e antigüidade, e quando os incluímos nestes quinhentos anos de uma história questionável, recorremos ao erro de não reconhecermos suas histórias, seus documentos.

Os 500 anos não incluem a história dos povos nativos do Brasil. Esta história, múltiplas histórias, é muito mais antiga (de setenta mil anos, como atestam as recentes descobertas da arqueologia brasileira) . O 22 de abril, para os tantos povos que aqui já habitavam, constitui-se como o marco do seu fim, o momento em que avistaram os "bárbaros homens", embarcados nas grandes caravelas, que viriam a marcar seus corpos, estuprar suas mulheres e sepultar sua cultura.

Quinhentos anos depois seus corpos ainda são queimados em praças, no manto da noite, e seus documentos apagados pela história tradicional.

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