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RICARDO MACHADO: Acadêmico de História na Universidade Regional de Blumenau. Foi pesquisador do Laboratório de História Oral da FURB e presidente do Diretório Central dos Estudantes nesta mesma Universidade. Outros Textos deste autor: |
Educação para todos X naturalização das desigualdades. Ricardo Machado* Os grandes desafios que tem se colocado frente ao movimento estudantil atualmente é a luta, não só institucional, mas sobretudo em torno das visões de mundo que tem dominado cada vez mais a educação no Brasil. E aqui não me refiro ao já clássico "FORA FHC e FMI", pois parto do princípio que a dominação, não se encontra somente nas instituições de poder formais, mas também se encontra incorporada nos valores propagados no seio da sociedade, inclusive por vezes, pelas visões de mundo daqueles que se encontram em situação de dominação. Nos últimos anos é possível ouvir em vários lugares ao mesmo tempo a idéia de que: "É justo que os ricos devam pagar pelos pobres a educação que todos venham a receber, por isso o ensino deve ser privatizado e bolsas de estudos deverão ser distribuídas entre os pobres". Visão defendida não só nos setores políticos da burguesia, mas também por alguns setores marginalizados economicamente. Porém é uma visão que se baseia em uma análise superficial da realidade, e que não leva em consideração questões estruturais, e fundamentalmente visa não transformar as condições sociais que impedem que os indivíduos tenham acesso a educação, mas sobretudo buscam perpetuar a exclusão social. Só que a diferença, é de que a exclusão desta vez se coloca mais clara, ou seja, tentando transformar-se em "natural". Aqueles que defendem tal jargão, acabam reproduzindo um sutil mecanismo ideológico de naturalização de desigualdades sociais, tornando as diferenças naturais. Este jargão está na verdade, associado a concepção de que sendo as sociedades formações naturais, não podem ser dissociadas da natureza que é o seu solo de origem, e, por isso ambas devem sujeitar-se às mesmas formas de correção ortopédica que as novas tecnologias poderão vir a oferecer. Daí a educação ser considerada uma riqueza natural, tal qual uma fonte de água, à qual alguns podem facilmente ter acesso por serem mais fortes fisicamente, e não outros, por serem fisicamente mais fracos, ou melhor uns ricos e outros pobres. Tendo esvaído as diferenças entre sociedade e natureza, ou entre o simbólico e o mecânico, o jargão neoliberal concebe a educação como um serviço a ser gerenciado por meio de pagamento dos ricos e uma dádiva concedida aos pobres, e , com isso pretende introduzir uma correção ao nefasto desequilíbrio social. Nesta visão de Estado paternalista, as conquistas deixam de ser ao direito de cidadania, mas sim uma dependência social, assim quem se "aproveita" do ensino público deve pagá-lo. Tudo se passa, pois como se a educação não fosse um direito arduamente conquistado mediante longas lutas sociais, para além do estado de natureza. O que precisa discutido é a falta de investimento nos setores que promovem cidadania ao povo. Vivemos em país em que cada dia investe menos em educação pública, seja ela básica ao não, e ao mesmo tempo se gasta 240 bilhões no pagamento de juros e amortização das dívidas interna e externa. Encontramos escolas públicas de ensino básico "sucateadas", e com seus profissionais desvalorizados, fato que vai dificultar a formação e impedir que muitos acessem ao ensino superior. Por isso garantir a educação para todos, é peça fundamental para a promoção da democracia, uma vez que irá possibilitar condições iguais de participação social. E afirmar que o único jeito de se resolver esta problemática é através de cotas para pobres em universidade, é naturalizar a desigualdade. É afirmar que o pobre é incapaz de entrar na Universidade. Afirmar este jargão é deixar de se levar em consideração as condições estruturais que impedem o acesso a cidadania, que é dever do estado conquistado em lei na constituição de 1988. Certamente não é através da cobrança de mensalidades que tornaremos o acesso a universidade mais justo. Além disso, o que está em jogo é também que tipo de universidade se defende. Pois para nós, ela não está somente ligada a uma formação individual, mas sobretudo para transformar a realidade social. Uma vez garantido o acesso a uma educação para todos, significa dar possibilidades para pessoas, independente de classe, cor, gênero, e estes terão condições de transformarem em profissionais qualificados e comprometidos socialmente. Basta olharmos para a história da humanidade, para percebermos que a exclusão não é natural. E ao tomarmos consciência que a sociedade não é estática, perceberemos que ela pode e deve mudar, mas somos nós que temos que provocar essas mudanças. É para isto que fundamentalmente nos serve a Universidade: para não deixar naturalizar o que não é natural. |