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Timor-Leste: Das invasões à independência

 Emílio César Relvas

 

Segundo noticiou há dias o EXPRESSO, «o ministro dos Negócios Estrangeiros reconheceu em Madrid que a maior parte dos diplomatas portugueses estava convencida, na década de 90, que a única solução para Timor-Leste era a integração na Indonésia. Martins da Cruz confirmou, assim, as polémicas afirmações de Durão Barroso no livro Timor - Os anos da Resistência, de Ângela Carrascalão. No entanto, o ministro salientou que, apesar do seu cepticismo, os diplomatas portugueses cumpriram à risca as instruções do Governo».

«Martins da Cruz referiu ainda que os principais países aliados de Portugal e, em particular, os parceiros da União Europeia, achavam na altura que a questão de Timor-Leste estava encerrada e aconselhavam o nosso país a abandonar a causa».

«Deus Pinheiro manifestou-se profundamente indignado com as afirmações de Durão Barroso e foi a vez de a Associação Sindical dos Diplomatas lembrar que os diplomatas estiveram mobilizados durante duas décadas para defenderem a independência de Timor-Leste».

«Mas a embaixadora portuguesa em Jacarta, Ana Gomes, também manifestou em Díli a sua concordância com as declarações de Durão. Curiosamente, segundo fontes do MNE, Ana Gomes foi uma das diplomatas que na década de 90 acreditaram na independência de Timor. Segundo essas fontes, haveria 'quatro ou cinco maluquinhos' que nessa altura acreditavam na causa. Outros eram Fernando Reino, Costa Lobo e Quartim Santos, que será o primeiro embaixador de Portugal em Timor-Leste».

Assim escreveu o EXPRESSO e, segundo o mesmo semanário, foi anunciado no dia 10 de Maio que o Governo pretende criar um «livro branco» sobre a polémica levantada pelas afirmações do primeiro-ministro, Durão Barroso, na apresentação do livro Timor - Os anos da Resistência, de Ângela Carrascalão.

Desejo que o referido «livro branco» saia a lume o mais rapidamente possível. Se existem documentos escritos sobre a matéria da polémica, urge publicá-los para esclarecimento de todos nós.

Tudo muito bem, mas facto indesmentível é a forma desastrosa como foi feita a descolonização de Timor, aliás como as das restantes colónias.

Timor foi simplesmente abandonado e entregue a uma devastadora guerra civil, praticamente ganha por uma facção de índole comunista, que chegou a proclamar a independência da antiga colónia.

A Indonésia, país com uma política ferozmente anticomunista, não consentiu que a outra parte da ilha ficasse ocupada por forças que ela considerava inimigas. Outro tanto aconteceu com a Austrália e, logicamente, com os poderosos Estados Unidos da América. Nenhum destes países quis ver instalada naquela parte do mundo uma nova ilha de Cuba. E o que era de esperar aconteceu fatalmente. A Indonésia, com a conivência dos outros, ocupou o vazio deixado por Portugal.

Que acção teve Portugal, então a braços com o PREC e outros problemas graves, nos anos seguintes mais próximos?

Nenhuma.

E assim se manteve a situação, até que surgiram alguns inconformados com a política externa portuguesa que, animados pelo facto de as Nações Unidas sempre terem considerado Timor território sob administração portuguesa e pelo fim da guerra-fria e consequente «mudança ideológica» da Fretilin e, mais tarde, fortalecidos com a queda do regime de Jacarta, decidiram encetar a luta que redundaria na independência efectiva de Timor. O papel desempenhado pela igreja católica local foi crucial para o acordar das consciências adormecidas. O desempenho da ONU, após saída dos indonésios, tem sido notável.

Perante todas estas descrenças e vicissitudes, podemos hoje considerar a independência de Timor como uma verdadeira proeza.

Este infeliz território de Timor foi vítima, só nos finais do século XX, de duas cruéis invasões estrangeiras, a do Japão, durante a II Guerra Mundial, e a da Indonésia.

O comportamento de Portugal na primeira invasão foi completamente diferente da que teve na segunda. Antes da invasão indonésia, o governador deixou a colónia e retirou-se para a vizinha ilha de Ataúro juntamente com as forças estacionadas no território. Na invasão japonesa, pelo contrário e malgrado o enorme poder da máquina de guerra nipónica, o governador não abandonou a colónia. E mais: ele recusou terminantemente entregar o palácio do governo aos japoneses tendo nele permanecido até ao final da guerra, sofrendo estoicamente vexames e privações. O mesmo sucedeu aos portugueses que o acompanharam: foram acantonados em dois campos de concentração (ironicamente mais de uma vez metralhados pela aviação aliada), onde passaram quatro anos de sofrimento atroz e sem qualquer contacto com as respectivas famílias nem com a Pátria. Todos os dias a bandeira portuguesa era hasteada nos dois campos e no palácio. Uma dessas bandeiras, muito velhinha, perfurada por balas, encontra-se hoje exposta na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, oferecida àquela instituição pelos familiares de um dos ex-prisioneiros daqueles campos.

Finda a guerra, os japoneses renderam-se aos portugueses sobreviventes, que, doentes e depauperados, com o governador à frente, ocuparam administrativamente todo o território. Mais tarde, quando as tropas portuguesas enviadas para Timor ali chegaram constataram que todo o território estava pacificado e continuava sob a soberania portuguesa.

Embora exista uma apreciável bibliografia sobre a ocupação japonesa de Timor, alguma escrita por estrangeiros, os dramáticos episódios com ela relacionados andam esquecidos das mentes portuguesas. Penso que não é de mais lembrá-los nesta altura histórica.

 

*Extraído da edição on-line o jornal português EXPRESSO em 2002.

 

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