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POEMAS DO TIMOR LORO SA'E "Nosso grito é o silêncio/ na passagem do tempo/ e o tempo é o sangue/ no silêncio do mundo" Xanana Gusmão |
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Bibliografia Utilizada:
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PARÁBOLA DE EVA Vera Camerotti Estive em Timor Leste durante o ano de 1994. Pouco tempo antes de minha partida, recebi a visita de três homens que diziam querer conhecer a Irmã brasileira, para conversar um pouco em português. Durante nossa conversa, na qual eles recordavam as suas experiências, um deles me disse: "Madre, voltando para sua terra, fale de nós! As pessoas precisam saber que Timor Leste existe!" Timor Leste, uma pequena metade de ilha, que flutua a milhares de quilômetros de nós e no entanto tem um povo muito parecido com o nosso. Para mim a imagem que trago do Timor Leste se traduz na figura de uma menina chamada Eva, que conheci durante uma visita ao "Hospital" de Baueau. Eu estava lá para a consulta médica de algumas meninas do internato. Enquanto elas aguardavam o médico, resolvi dar uma volta pelas enfermarias (agrada muito ao povo sentir a presença dos religiosos na sua vida, seja nos momentos de alegria como naqueles de sofrimento). Passando por um dos corredores, escutei um gemido baixinho e constante vindo por detrás de uma porta entreaberta. Entrei, e me deparei com uma menina de mais ou menos 5 anos, cujo corpinho estava totalmente queimado. Ela gemia baixinho, deitada num berço cuja situação de higiene era precária. Com uma das mãos, segurava um lenço amarrado na grade do berço, e deste modo sustentava no ar o bracinho queimado. Estava sendo medicada por um enfermeiro, também timorense. Este, com uma tesourinha de ponta quebrada, tentava tirar as crostas da queimadura sem ferir muito, pelo menos o quanto lhe era possível com aquele precário instrumento. A menina gemendo dizia baixinho: "Tio, ituan, ituan, ituan, ituan..." ("devagarinho, devagarinho"). Quando cheguei perto, ela estendeu a outra mãozinha e segurou firme na minha mão. O enfermeiro, ao perceber que eu falava português, me contou a história de Eva: menina órfã, que morava com a tia em Venilalem e havia se queimado com o lampião de querosene. A situação dela era gravíssima, seja pelo grau e extensão das queimaduras, seja pelo ambiente sem condições de higiene e com poucos recursos médicos. Voltei para casa com a imagem de Eva gravada na mente e no coração. Ao retornar uma semana depois, para levar outras jovens do internato ao médioo, procurei aquela porta da enfermaria, pensando encontrar o bercinho vazio, mas, para minha surpresa e alegria, Eva ainda estava lá. Durante todo o mês de dezembro e parte do mês de janeiro, voltei semanalmente ao hospital e pude acompanhar a resistência daquela pequena. Na minha última visita, quinze dizas antes de voltar para o Brasil, encontrei Eva sentadinha no berço. Havia vencido a morte. Eva para mim é a imagem de Timor Leste, um povo pequeno, desconhecido, marcado por tantos sinais de morte. Um povo que durante a invasão da Indonésia e nos anos que se seguiram, parecia que não iria resistir, e no entanto resistiu e resiste, mostrando ao mundo a força do pequeno que acredita na vida e na liberdade apesar e acima de tudo. Vera Camerotti viveu no Timor Leste entre abril de 1994 e janeiro de 1995. Texto publicado em: SANT'ANNA, Sílvio L. TIMOR LESTE: Este país quer ser livre. São Paulo: Martin Claret, 1997, p. 258-260. |
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