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SOB O CRUZEIRO DO SUL

Por Luiz Carlos Amorim

Tive o prazer de ler "Cruzeiros do Sul" da nossa romancista maior, Urda Alice Klueger, a moça loura de Blumenau, dos dedos cheios de poesia. Com maestria e segurança, Urda volta à ficção histórica e nos mostra a saga dos nossos antepassados, a saga da formação do povo catarinense, desde a chegada dos portugueses, que aqui encontraram os índios, donos da terra, até os dias atuais. "Cruzeiros do Sul" é a história das gentes que trilharam os caminhos do tempo, construindo o nosso Estado e o nosso futuro. É a história da nossa gente, começada com Madjá-Aiu, índia xokleng e um branco europeu, que por acaso veio parar no litoral de Santa Catarina. É também a história de Miguel e Manoel, dois portugueses que começaram outra linhagem de catarinenses. Essas duas famílias, através de muitas gerações, vêm até os nossos dias para cruzarem suas histórias, numa trajetória na qual a autora retrata com fidelidade as alegrias e lutas dessa gente que deu origem ao que hoje é o nosso Estado. Urda recria a história com pesquisa e muita sensibilidade, fazendo tudo acontecer sob as luzes cúmplices e ao mesmo tempo indiferentes do Cruzeiro do Sul. Sei que o título deste romance de fôlego de Urda era, a princípio, "Sob o Cruzeiro do Sul", que lhe cabia muito melhor do que "Cruzeiros do Sul" opção do editor. Independentemente disso, este novo romance, talvez o maior da autora, em número de páginas e em grandiosidade de conteúdo, é exemplo de competência e criatividade no ofício de escrever. Urda dá uma sacudida na gente quando, a certa altura do seu grande painel, nos deparamos com a dura realidade dos descendentes da índia e dos europeus, que cruzam seus destinos. E isso é muito importante, para que nos conscientizemos - e essa é a função da literatura - de que essas personagens não são apenas personagens, são pessoas contemporâneas nossas, que existem e fazem parte do nosso dia-a-dia. Urda nos mostra que está acontecendo a vida ao nosso redor, sem que nos demos conta, sem que tomemos conhecimento dela e, conseqüentemente, sem que tomemos atitudes para melhorá-la. E há que se olhar e ver, pensar e repensar a nossa realidade, que é a mesma das criaturas de Urda. Não estamos todos sob o Cruzeiro do Sul?
Urda é conhecida em toda Santa Catarina e fora dela, pelo conjunto de sua obra, mas sobretudo por "Verde Vale" seu primeiro romance. Seguramente, a partir de agora, Urda terá seu nome vinculado a "Cruzeiros do Sul" que transformou-se, de imediato, num clássico da Literatura Catarinense. "Cruzeiros do Sul" me lembra "Cem Anos de Solidão" pela saga das várias gerações e me levou a ler novamente Garcia Márquez. E em lendo novamente "Cem Anos de Solidão" saltou-me aos olhos o contraponto entre o fantástico misturado com o real de Garcia e a recriação da realidade, da vida, com fidelidade e lirismo de Urda, empatando os dois na excelência na narrativa.

FONTE: http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia/cruzeirodosulart.htm . Pesquisa realizada em maio de 2002.

 

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