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GUERRILHA EXISTE, SIM SENHOR!
Urda Alice Klueger
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Numa tarde de sábado do último setembro, eu e minha amiga Lúcia saímos da enorme cidade de Bogotá/Colômbia em direção a Cartagena, no Caribe colombiano. Era grande a distância a ser vencida, e viajamos a noite toda com grande tranqüilidade, sem imaginar o que viria pela frente. Seis da manha de domingo, e o nosso ônibus foi parado na estrada, onde todo o trânsito estava sendo parado: cinco quilômetros adiante estava a guerrilha, a guerrilha colombiana, que antes de viajar eu imaginara como uma romântica guerrilha política, e que depois vim a confirmar ser uma guerrilha marxista-leninista. Os detalhes do que estava acontecendo mais adiante nos foram contados por uma mulher colombiana que lia o seu jornal de domingo com toda a tranqüilidade, na localidade onde estávamos, à beira da estrada, e que pareceu ter se enfadado um pouco por termos interrompido a sua leitura. Ela nos contou que, cinco quilômetros adiante, a guerrilha estava queimando três ônibus, e que havia matado um homem, um morador local, que havia elevado a voz e descomposto os guerrilheiros. Contou aquilo como fato corriqueiro, acostumada como estava há trinta anos de guerrilha, e voltou ao seu jornal. Havíamos descido os Andes durante a noite, e morríamos de calor dentro das nossas roupas que tinham sido para o frio. Além do calor e da espera, porém, nada sofremos, e foi até divertido ficar três horas ali, fazendo amizade com outros passageiros, enquanto o exército desobstruía a pista. Naquelas alturas, já sabíamos alguma coisa sobre a guerrilha: ela estava queimando todos os ônibus da Colômbia - sempre que pegava um ônibus, fazia saltar os passageiros, atravessava-o na pista e queimava-o - adiante eram três os queimando, e seu intenso calor os havia grudado no asfalto, o que estava dificultando a desobstrução da estrada. Três horas depois, e seguimos. Saber que havia ônibus queimando era uma coisa; passar lentamente por eles, logo em seguida, foi muito diferente. Os ônibus, na Colômbia, são muito modernos, de linhas aerodinâmicas, com ar condicionado e televisão, muito melhores que os do Brasil, e sofri um misto de angústia e revolta ao ver aqueles três ali, afastados para a beira da estrada por um trator do exército, transformados em metal retorcido e fumegante. Fotografei-os; creio que se não tivesse as fotografias, hoje, pensaria ter sonhado. Bem, já havíamos encontrado a guerrilha naquele dia, já tivéramos a nossa cota de emoção, agora era necessário relaxar. Dormi, então, para acordar, horas depois, com todos no ônibus em franco pânico: estávamos em uma reta, e lá adiante, na curva, havia um ônibus atravessado na pista, sinal certo de que a guerrilha estava lá e ia queimar outro ônibus. Nosso motorista freou bruscamente e pôs-se a fazer a volta. Claro que ele estava nervoso, como todos estão nervosos na Colômbia, fora do litoral, e seu nervosismo fez o motor do ônibus morrer atravessado na pista. Aí também entrei em pânico: e se ele não conseguisse sair dali, e a guerrilha nos pegasse? Saiu, e todo o trânsito fazia a volta às pressas. Fugimos em desabalada carreira para uma cidadezinha alguns quilômetros atrás, onde nos escondemos, como todos os outros veículos estavam fazendo. Logo em seguida chegou também o ônibus que víramos atravessado na pista — não era ele a vítima, ele avistara a guerrilha na outra curva adiante, e o víramos no momento em que fazia a volta pra fugir. Ficamos por duas horas escondidos naquela cidadezinha, enquanto o exército, aquartelado ali, saía para ver o que podia fazer, poucos e pobres soldados do exército, com armas respeitáveis, como nunca vi no Brasil, mas sem uma estrutura que possa fazer frente à grande estrutura que possui a guerrilha. Acabaram, porém, pondo a guerrilha em fuga e desobstruindo a pista, e quando seguimos nosso caminho, passamos por um grande caminhão incendiado, ainda explodindo em chamas - como não tinha conseguido pegar nenhum ônibus naquele lugar, a guerrilha tinha se contentado em incendiar aquele caminhão. Podem ter certeza de que ninguém mais dormiu naquele ônibus, naquele dia. Os passageiros que estavam sentados junto ao corredor ficavam o tempo todo vigiando a estrada, esperando, a cada curva, ver surgir de novo a guerrilha; os que estavam à janela, espiavam para dentro do mato das férteis terras colombianas, tentando ver onde a guerrilha iria aparecer de novo. Foi uma longa tarde de susto e medo e, à noite, chegamos à linda cidade histórica de Cartagena, onde a guerrilha não atua devido à proximidade do mar, e pudemos voltar a ficar em paz. Mas que a guerrilha existe, existe, sim senhor! Nunca pensei em estar tão perto dela!
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