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A HISTORIADORA URDA ALICE KLUEGER Viegas Fernandes da Costa Muito já se escreveu a respeito da escritora Urda Alice Klueger, mas pouco se falou sobre a historiadora Urda. Na verdade, a obra da historiadora confunde-se com a obra da escritora, já que seus livros refletem uma preocupação com o tempo e o cotidiano. Desde o seu romance de estréia (Verde Vale, 1979), a escritora aborda literariamente temas históricos, muitas vezes questionando e até mesmo desconstruindo "tradições", como é o caso do casamento "entre alemães". Nos romances de Urda é comum encontrarmos personagens de ascendência germânica enamorarem-se de negros ou mulatos. Também muito presente se faz a figura do indígena brasileiro. Em "Vem, vamos remar" (1986), a escritora conta, em tom de crônica, a sua experiência na enchente de 1983, fato marcante para a história do Vale do Itajaí. Agora, é em "Cruzeiros do Sul" (1991), o mais elaborado dos seus romances, que a escritora assume o papel de historiadora. "Cruzeiros do Sul" procura contar a história do Estado de Santa Catarina através da saga de uma família. A própria escritora afirma em entrevista que a sua preocupação com a precisão dos fatos históricos a fez ler e estudar dezenas de livros sobre a história catarinense. A interpretação da História pela autora foi se modificando com o tempo, e a interpretação positivista foi dando lugar a uma interpretação de esquerda. Esta mudança é facilmente percebida no último capítulo de "Cruzeiros do Sul", onde a crítica à miséria brasileira, agravada pelo confisco do Plano Collor, é nítida. Também seus dois livros de viagens ("Recordações de Amar em Cuba" [1995] e "Entre Côndores e Lhamas" [1999]) demonstram claramente a opção da escritora pelo socialismo. Capítulo especial deve-se dedicar as suas crônicas. A maioria delas foi publicada em colunas semanais do Jornal "A Notícia" (Joinville) e do jornal "Expresso das Nove" (Açores - Portugal), e há uma grande quantidade distribuída por jornais, revistas, antologias e páginas da Internet. Nas crônicas, Urda procura refletir sobre suas viagens à África, Europa e América, além, é claro, de falar sobre outros temas que vivenciou. Nestas crônicas fica nítida a procura pelo enfoque histórico e antropológico, e a valorização da cultura americana. É esta preocupação com os temas históricos que a motiva, em 1997, a ingressar na faculdade de História (curso na qual se forma em 2001). Durante o curso de História procura desenvolver trabalhos que aproximem história e literatura, e trabalha principalmente com dois teóricos, o brasileiro Gilberto Freyre e o francês Braudel. Já no final do curso de História, suas análises recaem sobre o povo Sambaquiano, que atualmente estuda intensamente, misturando o ofício do historiador com o do antropólogo, procurando acampar nos sítios arqueológicos para melhor sentir a presença do passado. Os resultados destas suas pesquisas devem originar dois livros: um romance histórico (que atualmente está escrevendo) e um livro didático sobre o assunto. Em toda esta trajetória literária, a influência da história nos textos da escritora Urda Alice Klueger é cada vez maior, porém as influências da romancista sobre a historiadora também permanecem com força, tornando-se impossível desvincular uma da outra. Blumenau, abril de 2002. * O autor é historiador e professor. |