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URDA E O ROMANCE NA LITERATURA CATARINENSE
Por Luiz Carlos Amorim
O romance está muito bem representado na Literatura Catarinense, por uma moça loura, brejeira e loura como outras nascidas em Blumenau, mas com uma grande diferença: ela escreve. Escreve coisas com sabor de poesia, com sabor de vida, uma fonte inesgotável de emoção e sensibilidade. Ela escreve obras-primas. Essa moça é Urda Alice Klueger, que já publicou títulos como "Verde Vale", o seu primeiro grande sucesso, com sucessivas edições, a saga dos primeiros colonizadores em Santa Catarina, uma canção verde da cor do amor e da serenidade, da cor da ternura; "As brumas dançam sobre o Espelho do Rio", "No Tempo das Tangerinas", "Vem, Vamos Remar", "Te Levanta e Voa", "Cruzeiros do Sul", "Recordações de Amar em Cuba II", "A Vitória de Vitória" - o primeiro livro infanto-juvenil da romancista e, lançado recentemente, "Entre Condores e Lhamas". "As Brumas dançam Sobre o Espelho do Rio" é poesia em prosa, é um hino de liberdade e à natureza, é uma canção de amor - amor como podemos concebê-lo em todas as suas formas. E nos dias de hoje, quando proliferam tantas "novelas" e tantos "romances", não é fácil escrever uma história de amor sem cair, fatalmente, no clichê da famigerada pseudo-literaturaágua-com-açúcar. Com Urda, isso não acontece. Ela conseguiu - e tem capacidade de sobra para isso, como já bem o demonstrou em "Verde Vale" - construir uma obra consistente, grandiosa, com uma linguagem simples e poética, objetiva, plena de sensibilidade, o seu estilo que se firma, inconfundível. Neste romance, a autora deixou a saga dos colonizadores alemães, embora continue a correlação com a história do Vale do Itajaí, desta vez focalizando os pescadores e os colonos de beira-mar, na sua luta pela sobrevivência, numa época terrível como a da grande guerra. A fuga de uma gente simples e pura, humilde e leal, construindo do nada o paraíso em meio à mata virgem. A poesia e o lirismo, a capacidade de amar que encontrei nessa gente e na força da narradora da autora me impressionaram sobremaneira.Em "No Tempo das Tangerinas" - livro selecionado para o Vestibular 2000 - Urda volta ao fascinante universo da colonização do Vale do Itajaí, pelos alemães, mostrando as angústias da segunda guerra e a beleza da vida florescendo a despeito de tudo. "A guerra nunca acabava, mas o tempo das tangerinas voltava sempre." Aqui continua a saga dos Sonne, iniciada em Verde Vale, agora com os seus descendentes. "Nem a guerra, nem a diferença de raças, acentuada pelo fato de serem alemães e ser a Alemanha a mantenedora da guerra, desfez a harmonia daquela família e a sua integração com o chão e com a gente brasileira."Vem, Vamos Remar" é uma novela sobre as enchentes de Blumenau, vividas pessoalmente pela autora. Nunca ninguém retratou tão bem o drama das águas subindo, subindo e entrando pelas nossas casas e pelas nossas vidas. "Te Levanta e Voa" é outro romance também fora da linha de ficção histórica, com a qual Urda firmou-se como a mais importante romancista de Santa Catarina. "Te Levanta e Voa" é a história de jovens a procura de si mesmos, de seus destinos, pelos caminhos da vida, aprendendo a amar e a respeitar a dor.
SOB O CRUZEIRO DO SUL
Tive o prazer de ler "Cruzeiros do Sul" da nossa romancista maior, Urda Alice Klueger, a moça loura de Blumenau, dos dedos cheios de poesia. Com maestria e segurança, Urda volta à ficção histórica e nos mostra a saga dos nossos antepassados, a saga da formação do povo catarinense, desde a chegada dos portugueses, que aqui encontraram os índios, donos da terra, até os dias atuais."Cruzeiros do Sul" é a história das gentes que trilharam os caminhos do tempo, construindo o nosso Estado e o nosso futuro. É a história da nossa gente, começada com Madjá-Aiu, índia xokleng e um branco europeu, que por acaso veio parar no litoral de Santa Catarina. É também a história de Miguel e Manoel, dois portugueses que começaram outra linhagem de catarinenses. Essas duas famílias, através de muitas gerações, vêm até os nossos dias para cruzarem suas histórias, numa trajetória na qual a autora retrata com fidelidade as alegrias e lutas dessa gente que deu origem ao que hoje é o nosso Estado.Urda recria a história com pesquisa e muita sensibilidade, fazendo tudo acontecer sob as luzes cúmplices e ao mesmo tempo indiferentes do Cruzeiro do Sul. Sei que o título deste romance de fôlego de Urda era, a princípio, "Sob o Cruzeiro do Sul", que lhe cabia muito melhor do que "Cruzeiros do Sul" opção do editor. Independentemente disso, este novo romance, talvez o maior da autora, em número de páginas e em grandiosidade de conteúdo, é exemplo de competência e criatividade no ofício de escrever. Urda dá uma sacudida na gente quando, a certa altura do seu grande painel, nos deparamos com a dura realidade dos descendentes da índia e dos europeus, que cruzam seus destinos. E isso é muito importante, para que nos conscientizemos - e essa é a função da literatura - de que essas personagens não são apenas personagens, são pessoas contemporâneas nossas, que existem e fazem parte do nosso dia-a-dia. Urda nos mostra que está acontecendo a vida ao nosso redor, sem que nos demos conta, sem que tomemos conhecimento dela e, conseqüentemente, sem que tomemos atitudes para melhorá-la.E há que se olhar e ver, pensar e repensar a nossa realidade, que é a mesma das criaturas de Urda. Não estamos todos sob o Cruzeiro do Sul?
Urda é conhecida em toda Santa Catarina e fora dela, pelo conjunto de sua obra, mas sobretudo por "Verde Vale" seu primeiro romance. Seguramente, a partir de agora, Urda terá seu nome vinculado a "Cruzeiros do Sul" que transformou-se, de imediato, num clássico da Literatura Catarinense."Cruzeiros do Sul" me lembra "Cem Anos de Solidão" pela saga das várias gerações e me levou a ler novamente Garcia Márquez. E em lendo novamente "Cem Anos de Solidão" saltou-me aos olhos o contraponto entre o fantástico misturado com o real de Garcia e a recriação da realidade, da vida, com fidelidade e lirismo de Urda, empatando os dois na excelência na narrativa.
A CUBA DE URDA
Acabo de ler "Recordações de Amar em Cuba II" de Urda Alice Klueger, o penúltimo livro da escritora catarinense a sair pela Editora Lunardelli, já que ela fundou a própria editora em Blumenau e agora publica os próprios romances e de outros escritores, tanto do estado como de outras regiões.Estou acostumado com a romancista de mão cheia, a ficcionista exímia, de livros como "Verde Vale" , "No Tempo das Tangerinas", "Cruzeiros do Sul" e tantos outros e estranhei um pouco, no início do livro de Urda.Mas foi apenas no início. Logo logo ela me confirmou o seu domínio total na narrativa desta obra de não-ficção e fui verificando, à medida que lia - e não parei, até terminar - a importância da obra.
Como a idéia que temos de um lugar, de um povo, pode ser distorcido, através do tempo e do espaço, por informações incorretas.
Urda nos revela uma Cuba diferente, bem diferente daquela da qual ouvíamos falar, onde, como ela mesma diz, "comunista não come criancinha". Lá, segundo ela constatou, in loco, as pessoas são cultas e amáveis, apesar da carência de produtos de primeira necessidade por que passavam na época, inclusive comida, desde a queda da União Soviética e do bloqueio econômico dos Estados Unidos: quase nada chegava ao país.Hoje, as coisas já melhoraram e Cuba conseguiu sobreviver à falência do seu fornecedor. Eles, que só plantavam fumo e cana-de-açúcar, que era o quanto precisavam para trocar por outros produtos com a União Soviética, aprenderam a plantar alimentos, diversificaram a agricultura e superaram o fantasma da fome que se abatia sobre Cuba.
O detalhe curioso que não está no livro: depois de passada a crise e resolvido o problema da produção de alimentos, o governo autorizou as pessoas a abrirem restaurantes - antes, só havia restaurante para turista, cubano não podia entrar - e todos têm no nome a palavra "Paladar" que eles tiraram da novela "Vale Tudo" exibida por lá. Em Cuba, a saúde do povo é prioritária, a educação e a cultura também. Vale a pena passear com Urda pelas ruas de Cuba, conversar com sua gente, conhecer sua história e suas histórias. Vale a pena ler "Recordações".
ENTRE CÔNDORES E LHAMAS
Este é o penúltimo livro de Urda, o primeiro a sair pela editora da escritora, a Hemisfério Sul. Trata-se de um livro de viagem, mostrando toda a trajetória de ida e de volta a Machupichu, no Peru, desde a saída do Brasil até a chegada de volta, em Blumenau, tudo contado com a maestria de uma grande contadora de história. E não é apenas narração, é um romance, com história e personagens: a viagem é o cenário. A narradora conhece, em uma cidade do Peru, um nativo e tem um romance com ele. Será verdade ou seria apenas um tempero adicionado para tornar o livro ainda mais interessante? Há muita curiosidade, como a dificuldade de se respirar, nas grandes alturas em que se situa Machupichu. Mas há que se ler para se viajar com Urda e se conhecer um pouco desta fantástica viagem.
A VITÓRIA DE URDA
O livro "A Vitória de Vitória", da romancista catarinense de Blumenau, Urda Alice Klueger, está na segunda edição. É um livro infanto-juvenil, a primeira incursão de Urda neste gênero, com a qual ela se dá muito bem, alcançando invejável sucesso. Com a categoria de uma escritora de literatura infanto-juvenil experiente, Urda passa para as crianças, em seu livro, através de uma colher, Vitória, a capacidade que temos de aprender e de sentir, de ter emoções, assim como evidencia, também, a necessidade que temos de viver em sociedade. É, com certeza, mais uma vitória de Urda.
Um trecho do livro:
"Vitória era uma linda colher de prata, com cabo todo trabalhado, onde estava esculpida uma pequena parreira de uvas com minúsculos cachinhos. Como toda colher, ela não tivera infância: os talheres já nascem do tamanho que vão ter por toda a vida. E fazia tanto tempo que ela nascera, tanto tempo! Ela lembrava-se de tudo muito bem. Primeiro, houvera uma confusão de metal em ebulição e, de repente, ela nascera, bem como uma porção de irmãs suas, todas colheres de linda prata, que passaram pelas mãos de um homem de barbas compridas e brancas, que deu os retoques nas suas parreirinhas e nos seus cachinhos de uvas. Orgulhosas e trêmulas de emoção, as colheres aguardavam para saber o que iria acontecer nas suas vidas, até que foram colocadas numa caixa de veludo azul e fizeram uma viagem até a loja. Quanto tempo fazia que isso tinha acontecido? Vitória não sabia medir o tempo em anos, mas sabia que tinha sido há muito tempo atrás. E como lembrava-se de tudo!"
NOVO LIVRO NASCENDO
Vem aí um novo livro de Urda Alice Klueger. Seu mais recente projeto: um novo romance a ser escrito neste ano de 2001, sobre os catarinenses de 6.000 anos atrás: os Sambaquianos. Os homens que fizeram os Sambaquis não são os índios, e nem os antepassados dos índios. E sobre essa gente que Urda vai escrever, usando as pesquisas que existem a respeito. Urda está estudando a fundo o assunto e terá como orientadora uma professora especialista (doutora) no assunto, Elizabete Tamanini, do Museu do Sambaqui, de Joinvile. A editora, é claro, será a Hemisfério Sul, que tem à frente a própria escritora.
POETISA DA PROSA
Os romances de Urda têm o poder de prender o leitor da primeira à última página, fazendo com que a gente os leia de um fôlego só. Não importa o tema: a força narrativa da autora, a construção dos personagens, humanos e autênticos, o cuidadoso e minucioso trabalho de delinear os cenários, o engendramento da trama, consistente e verossímel, fazem de Urda a escritora mais importante desta Santa e bela Catarina.
Cecília Meirelles já disse, em seu "A Arte de Ser Feliz" que é preciso saber olhar para ver." E Urda sabe olhar a natureza e ver que "a manhã vem com muitas brumas, mas depois o sol chega se espreguiçando todo de tanta beleza, devagar, com uma lentidão cheia de prazer, vai tocando a branquidão que o rio forma para o alto, para longe, de encontro aos morros distantes, onde elas acabam por se desfazer numa beleza transcendental...
FONTE: http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia/urdaautores.htm . Pesquisa realizada em maio de 2002.