machupichu

FIGURA 1: Ruínas de Machu Picchu, a cidade sagrada do Império Inca, cravada no alto da Cordilheira dos Andes. A cidade só foi descoberta em 24 de julho de 1911, pelo historiador e arqueólogo estadunidense Hiram Bingham

______________________

FIGURA 2: A Lhama é um animal típico da Cordilheira dos Andes.

_____________________

FIGURA 3: Múmia Inca de aproximadamente 1000 (mil) anos. Sua preservação foi possível em função das baixas temperaturas e do clima seco predominantes nos Andes.

_____________________

FIGURA 4: Múmia de uma criança Inca. O corpo foi encontrado na favela Tupac Amaru, na periferia de Lima (capital do Peru), junto a centenas de outras múmias, sepultadas com diversos artefatos necessários a uma vida no além, segundo suas crenças.

 

 

 

 

 

 

________________________

Fonte das Imagens: (1) Povos da Antigüidade: Incas, nº 2. São Paulo: Escala, s/d, p. 64; (2) Idem, p. 30; (3) Horizonte Geográfico, nº 47, set/out, 1996, p. 31; (4) National Geographic Brasil, nº 25, maio, 2001, p. 42.

VIAGEM A MACHUPICHU

Urda Alice Klueger

Do que falar primeiro? Talvez da História, pois foi ela quem nos ofereceu uma Machupichu intocada - os espanhóis nunca estiveram lá. Cidade sagrada dos Incas, construída há séculos na crista da montanha, de perdida montanha escondida na selva, construída de forma a não ser vista do sopé da montanha (a gente passa a avistá-la depois de subir a metade da montanha, nunca Machupichu foi descoberta pelo invasor espanhol. Ela sobreviveu inviolada ao crepúsculo dos Filhos do Sol, e até hoje está lá, perenizada nas suas construções de pedra, que perderam apenas os telhados que um dia foram de palha. Um dia ela foi um grande centro religioso e intelectual do povo Inca, freqüentada por sua nobreza e seus sacerdotes, onde se cultuavam os deuses e se estudava muita coisa, como astronomia, por exemplo. Afinal, abandonada pelo povo derrotado, ficou por quatro séculos esquecida, e até os descendentes dos Incas não mais sabiam dela.

Procurava-se, porém, a Cidade Perdida dos Incas. o lugar para onde teriam fugido os remanescentes dos Filhos do Sol depois da queda do seu Império, e foi assim que em 1911, um professor de História, estadunidense, à procura da Cidade Perdida, andou por ali investigando. Sem querer, foi bater no sopé das montanhas onde fica o complexo de Machupichu, e hospedou-se em casa de um agricultor e sua mulher, pobres agricultores plantadores de milho, mas uma gente muito alta, altíssima mesmo, quase um povo de gigantes, já em extinção naquela época de 1911, dos quais restam fotografias. Muito atento a tudo, o professor estadunidense sentiu que havia algum mistério grande por ali, pela forma corno o casal fazia segredo da localização de suas plantações. Num dia em que o agricultor saiu para trabalhar, foi seguido de longe pelo professor, e eu fico pensando no pasmo desse segundo quando atingiram as plantações do primeiro: as plantações localizavam-se nos terraços para agricultura da Cidade de Machupichu!!!

Depois de quatrocentos anos de abandono, Machupichu estava totalmente tomada pela selva, menos nos terraços cultivados pelo nosso agricultor gigante, e foi preciso redescobri-la inteiramente. Expedições foram organizadas, Machupichu foi retirada de debaixo da selva, e se conta que nos relatórios oficiais é afirmado que não havia nenhum metal precioso encontrado na Cidade Sagrada, mas que, na verdade, os templos estavam forrados de grandes placas de ouro batido, e que o professor que a descobriu carregou embora tropas e tropas de mulas carregadas com ouro. Vale lembrar que a Cidade Perdida dos Incas ainda não foi descoberta, que pode existir em algum lugar da selva peruana ou imediações, talvez com descendentes dos Filhos do Sol ainda tocando a sua velha civilização. Assim como Machupichu levou quatrocentos anos para ser descoberta, pode perfeitamente se achar, ainda, a Cidade Perdida e sua gente. A América é vasta e imensa demais para esconder muitos mistérios, e essa é urna das muitas qualidades que me deixam tão satisfeita de ter nascido americana, e não européia. As pessoas na Europa estão velhas, seus sonhos estão velhos, eles já fizeram tudo e não lhes resta mais quase nada com que sonhar, enquanto que a América é plena de vida, de energia, de sonhos. Na América, tudo ainda é possível, e acho que tive uma sorte danada por ter nascido neste continente novo, onde tudo ainda vai acontecer.

Mas voltemos a Machupichu. Hoje, muito bem protegida e guardada pelo governo peruano, ela é um primor que a gente não pode perder de conhecer. Rodeada por muros de pedra de mais de um metro de espessura. a cidade se divide em bairros, centros administrativos, centros religiosos, áreas de agricultura, enfim, tudo o que é necessário que exista numa cidade. Nela encontramos, na mais perfeita pedra lavrada e encaixada típicas da arquitetura Inca, templos de culto ao Sol, à Lua. às Estrelas, às Nuvens, ao Condor. Perguntei ao guia sobre esses deuses Incas, e fiquei surpresa com o esclarecimento dele : os lncas acreditavam num Deus único, superior a todas essas manifestações, um ser superior que comandava tudo, e o sol, a lua, o condor, eram apenas agentes intermediários no seu culto. Citou-me um exemplo: se havia urna seca. rezava-se e faziam-se oferendas ao Condor. Se acontecesse de no dia seguinte chover, acreditava-se que o Condor, a ave que voa mais alto que todas, tivesse levado as preces e as oferendas da população ao Deus superior, que ficava lá nas alturas, onde vivia o Condor. São lindíssimos tais templos, e é necessário ver-se ao menos fotografias para se ter idéia deles, da sua arquitetura tão perfeita, e a gente começa por conhecê-los, e depois há uma sucessão interminável de outras coisas para ver a Tumba Imperial, onde habitava a Morte. os altares do Sol, as guaritas onde se postavam guardas, as casas, as escadas, as passagens, os inúmeros terraços para agricultura, cobertos de urna graminha verde, onde hoje pastam algumas lhamas gordas e mansinhas. Bacias de pedra. Perfeitamente redondas e simétricas, dispostas no chão, despertam a nossa curiosidade: para que serviriam? Provavelmente, cheias d’água, serviram no passado corno espelhos para observações astronômicas das estrelas. E aqueles nichos de pedra nos muros, com encaixes onde deveriam estar bairras? Ah! Aquilo? Eram locais de castigo, onde ficavam, por horas ou até dias, as pessoas que sofriam punições, sem ter como descansar e sem receber alimento. Os mais graves crimes que se podiam cometer no mundo Inca eram o assassinato, a mentira e a preguiça. O assassinato era punido com a morte, normalmente se lançando o culpado do alto de urna montanha, e os outros crimes tinham punições como as de prisão, em prisões como as que víamos ali, individuais e sem conforto. Era bastante branda a lei Inca, e acho que vale ressaltar que não se faziam sacrifícios humanos na sua civilização. Quando se queria oferecer um ser vivo a Deus, sacrificava-se uma lhamita.

O sistema social Inca previa trabalho para todos. Pessoas velhas, que não tinham mais condições de exercer outros ofícios, eram encarregadas de cuidar das crianças, em verdadeiras creches coletivas, para que os pais delas pudessem trabalhar os campos e exercer o artesanato, etc. Não se admitia a preguiça de forma nenhuma. Era um sistema social que dava muito certo, e se, quando os espanhóis chegaram, o Império não estivesse dividido e enfraquecido por urna guerra civil, poderia ter sido diferente o destino da América.

Na verdade, são necessários quatro ou cinco dias para se conhecer toda Machupichu. Andamos horas e horas por ali, indo de surpresa em surpresa, de deslumbramento em deslumbramento, descendo e subindo a montanha por suas antigas ruas calçadas, e sentiamo-nos exaustas. Tínhamos baixado bastante, estávamos a apenas 2.400 m de altitude, mas mesmo assim era urna altitude respeitável e ela nos deixava sem muitas forças para tanto subir e descer. Eu me lembrava de todo o esoterismo que se atribui a Machupichu, de todos os livros que lera a respeito da cidade que concentrava muitas forças do universo, de todas as peregrinações que para lá faziam os místicos, mas estava tão cansada em função da altitude que nada senti de esotérico: tudo o que conseguia sentir era o histórico.

 

Fonte: Klueger, Urda Alice. ENTRE CÔNDORES E LHAMAS. Blumenau: Hemisfério Sul, 1999, p. 112-115.

 

Retornar ao índice geral

www.viegasdacosta.hpg.ig.com.br